Supergirl é o único filme da DC em 2026, e chega aos cinemas carregando um peso que talvez nem seus realizadores tenham dimensionado completamente. Com roteiro de Ana Nogueira e direção de Craig Gillespie (Eu, Tonya e Cruella), a produção tem a chancela de James Gunn e Peter Safran e é estrelada por Milly Alcock, que muitos conheceram como a jovem Rhaenyra Targaryen em Casa do Dragão e que já havia feito uma ponta no final de Superman (2025). É o segundo filme oficial do DCU, e confesso que entrei na sala com uma expectativa que talvez tenha sido ingênua demais.
O projeto da Supergirl já rondava os corredores da DC desde os tempos do DCEU, com Sasha Calle sendo apresentada como a personagem em The Flash (2023). Mas quando James Gunn e Peter Safran assumiram o comando da DC Studios, os planos mudaram. Anunciaram então Supergirl: Woman of Tomorrow, baseado na minissérie em quadrinhos homônima de 2021 escrita por Tom King e ilustrada pela brasileira Bilquis Evely. E devo dizer: isso aqui me deu uma expectativa maior do que deveria, porque aquela HQ é excelente, uma das melhores (talvez a única realmente boa) histórias da Supergirl. E era justamente por isso que eu temia e, ao mesmo tempo, ansiava por essa adaptação.
Na trama, Kara Zor-El está comemorando seu 23º aniversário viajando para um planeta de sol vermelho para poder se alcoolizar, uma fuga do luto constante que a acompanha. Diferente do primo Superman, ela se lembra de ter perdido seu planeta e seus pais, e a Terra ainda não é seu lar. Acompanhada de seu cachorro Krypto, Kara cruza o caminho da jovem Ruthye Marye Knoll, que acabou de perder a família inocente assassinada para o bandoleiro espacial Krem das Colinas Amarelas. Ruthye quer vingança e Kara reluta em se envolver, mas quando Krem aparece, envenena Krypto e rouba a nave da heroína, a missão se torna inevitável.
A premissa do filme é bem similar a da minissérie em quadrinhos, e eu sei que o filme nunca seria tão bom quanto, mas não esperava que não chegasse nem perto. A direção de Gillespie é morta, sem sentimentos, sem a vibração emocional que o material pedia. Ele já mostrou que sabe lidar com personagens complexas em Eu, Tonya, mas aqui parece que todo o vigor visual e emocional se perdeu no espaço. Kara tem um passado trágico, mas a gente não sente isso em nenhum plano, em nenhum enquadramento, em nenhuma respiração da atriz.
Krypto moribundo é um momento que deveria arrancar o coração da gente, mas não existe sensação de medo algum que perdure. Em nenhum momento existe sensação real de perigo, mesmo quando Kara está em sistemas solares vermelhos (que a deixam sem poderes) ou verdes (que a envenenam), a fotografia não cria climas distintos, a trilha sonora não sublinha a urgência, e a edição de som não nos coloca dentro da aflição. Nós não tememos pela vida dela ou de Ruthye em nenhum instante. É tudo tão assepticamente coreografado que parece que os personagens estão imunes a qualquer consequência.
Krem não é um vilão interessante nem carismático. É genérico, sem camadas, e a performance não consegue elevar o material. E aí que entra Lobo, interpretado por Jason Momoa, que rouba a cena mais do que devia — e olha que eu gosto do Momoa, mas aqui ele é quase um chamariz, uma aparição que desvia o foco da protagonista e bagunça o ritmo da narrativa./extras/conteudos/lobo_jason_momoa.png)
E talvez seja essa a grande diferença que me incomodou. Quando saí de Superman no ano passado, me senti leve, motivado, com aquela vontade boba de ser uma pessoa melhor. O filme do Gunn tinha coração, otimismo e aquela crença de que mesmo num mundo cinza ainda vale a pena fazer o certo. Já aqui, saí do cinema triste — não pela história em si, que tem um fundo trágico e poderia ser emocionante, mas pela sensação de que o filme não me deu nada para levar comigo. Histórias de heróis existem, no fim das contas, para nos motivar, para nos fazer acreditar que podemos superar. E Supergirl não me motivou em momento algum.
O filme se passa no espaço, e as personagens vão de planeta em planeta, mas todos parecem iguais. Não há criatividade na direção de arte, não há identidade visual em cada novo mundo. É tudo cinza, marrom, desértico ou industrial. Parece que o orçamento foi gasto em efeitos especiais que não impressionam e em cenários que não contam histórias. É todo mundo chato, é tudo cansativo. Eu fiquei super entediado durante a sessão, pensando em como uma história tão rica poderia ter sido tão mal aproveitada.
Acho que Supergirl merecia muito mais. É uma personagem ótima, com uma história excelente, mas que caiu nas mãos de um diretor que não entende. Fica claro aqui a falta que faz um James Gunn na direção, porque o filme tenta ser do James Gunn o tempo todo e falha miseravelmente. É como se fosse o Vale da Estranheza do James Gunn, sabe? Ele tenta, chega quase lá, mas falha toda vez. É broxante. Uma direção de James Gunn com certeza trabalharia melhor a evolução trágica da personagem para ela se aceitar como super-heroína. Trabalharia melhor o envolvimento dela com Ruthye, a sensação de perigo das duas, a morte iminente de Krypto, a ameaça dos vilões. Mas não: é tudo vazio e repetitivo, e mesmo com uma duração tão pequena, eu queria que acabasse logo.
E, falando na falta que faz a direção do James Gunn, gostaria de acrescentar também aqui sobre a trilha sonora. A música parece genérica, descolada do que acontece na tela, e isso pesa ainda mais numa história que deveria ser sobre uma personagem emocionalmente complexa. O roteiro até tenta estabelecer uma conexão de Kara com a música, em flashbacks, vemos ela tentando se adaptar na Terra, abafando sua audição super sensível com headphones e músicas, mas essa ideia é simplesmente esquecida ao longo do filme. E olha que seria uma ótima oportunidade: toda vez que Kara saísse de um sol vermelho para o amarelo, poderíamos vê-la sofrendo de novo com a supersensibilidade, num paralelo bem interessante como mais um transtorno que aprofundaria a complexidade da personagem. Mas não: é só mais uma das coisas que está em tela e é jogada fora, esquecida, como se não fizesse diferença.
E já que falamos de música, assim como o inglês é mais uma vez tratado como a língua universal da galáxia, a ponto de ter uma conversa sobre como tem gente que entende a língua terráquea como se fosse um idioma comum que alcançou patamares extraterrestres, parece que a música terráquea também extrapolou fronteiras: em determinado momento, a gente vê alienígenas tocando Garota de Ipanema num bar extraterrestre. É uma escolha curiosa, pra dizer o mínimo, meio divertida, meio deslocada, mas que pelo menos mostra que o filme tem alguma personalidade em momentos isolados.
Por fim, é uma pena esse ser o segundo filme do DCU, principalmente porque o público já tem certa implicância com filmes da DC, especialmente com personagem feminina, e um resultado mediano desses só dificulta a caminhada. Supergirl já está nos cinemas, e eu saí da sala com uma sensação agridoce de oportunidade que poderia ter sido muito melhor aproveitada, mas que, no fim, ficou pelo caminho.


