Já se passaram quase cinco anos desde o último lançamento de um filme live-action do Homem-Aranha. Sem Volta Para Casa, o terceiro filme estrelado por Tom Holland, fez o cinema pirar e dar pirueta com a reunião dos três atores que interpretaram o herói nos cinemas americanos. Uma das críticas mais recorrentes àquele filme é que ele se apoiava pesadamente na nostalgia de trazer de volta não só os homens-aranhas dos universos anteriores, mas também os vilões clássicos. Contudo, a direção de Jon Watts nos três filmes sempre foi fraca e esquecível, transformando o Homem-Aranha num mimado dependente da tecnologia e dos personagens do MCU, como Homem de Ferro, Nick Fury e Doutor Estranho. Ao mesmo tempo, porém, Sem Volta Para Casa encerrou o arco de origem de Tom Holland e preparou o terreno para uma nova trilogia que prometia finalmente nos dar o Homem-Aranha que todos queríamos ver: mais urbano, mais pé-no-chão, um personagem que reflete a nossa identificação, ao contrário do que vinha sendo nesses três primeiros filmes.

E é exatamente isso que Um Novo Dia faz de melhor. O filme entrega tudo o que estava faltando. Vemos uma maturidade de Tom Holland como ator acompanhando o tom maduro e mais dramático da produção. O Homem-Aranha continua sendo, é claro, o divertido amigão da vizinhança que interage com as pessoas e é amado pelo povo de Nova York, mas Peter Parker é um f*dido, solitário e pobre, que ninguém se lembra. O fato de todo mundo ter esquecido da existência de Peter Parker – ele não tem registro, não tem RG – o ajuda a passar despercebido. Sem amigos e sem familiares, ele consegue focar totalmente em ser o Homem-Aranha em tempo integral, o que nos traz algumas dúvidas: de onde está vindo o financiamento para pagar aluguel e construir uma inteligência artificial e uma nova impressora 3D? Coisas que ele é perfeitamente capaz de fazer, mas sem dinheiro? A gente até tenta forçar e pensar que pode ser financiamento do governo, por ele estar ajudando a polícia e o Controle de Danos, que são os verdadeiros vilões deste filme, mas a produção não se preocupa em responder isso e, sinceramente, isso não chega a ser um problema.
Como anos se passaram, vemos como o Homem-Aranha está intrinsicamente ligado a Nova York e desenvolveu um coleguismo com outros heróis urbanos, como o Justiceiro (Jon Bernthal) e a Viúva Negra (Florence Pugh). Ele também se aproxima do Professor Bruce Banner (Mark Ruffalo) para tentar entender como conter suas mutações perigosas que acompanham seu desenvolvimento para a fase adulta, junto com as emoções, ansiedade e depressão, por não poder fazer parte integralmente da vida de seus ex-companheiros Ned Leeds (CEO do Sex…, digo, Jacob Batalon) e Michelle Jones-Watson (Zendaya que está absolutamente linda neste filme), que voltaram para Nova York – mas ela tem um novo namorado e não faz mais parte de sua vida.
É claro que a presença dos personagens do universo dos Vingadores, Novos Vingadores e Defensores pode servir para atrair mais atenção ao filme como sempre, mas o que vemos aqui na verdade é a Marvel Studios usando o Homem-Aranha para tentar se manter na ativa por mais tempo. Como sempre, o Homem-Aranha é quem salva a Marvel e dita o tom do que queremos ver. Se da última vez o filme entregou multiverso e fanservice, sendo responsável por esses cansativos quatro anos de Marvel multiversal que apostava na nostalgia, este novo filme traz de volta o Homem-Aranha pé-no-chão e focado nos sentimentos que a gente queria ver. Além disso, sem querer dar spoilers, o filme apresenta personagens que há tempos esperávamos nesse universo, trazendo o debate mais realista e polêmico sobre preconceito e aceitação, sobre como a humanidade teme ficar para trás com o crescimento dos super-humanos e tenta conter a evolução à força, com o Homem-Aranha tendo que escolher de que lado vai ficar.
Passando agora para a parte técnica, além desse roteiro muito bem escrito, temos a direção de Destin Daniel Cretton (Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis), que assumiu aqui e que eu quero, pra mim, que seja o novo diretor titular de todos os filmes do Homem-Aranha daqui pra frente. Ele finalmente é alguém que entende do personagem. A fotografia é linda! Como já víamos nas fotos que saíam das gravações, Cretton aposta numa fotografia mais cinemática, sem aquele ensolarado cru e colorido dos filmes anteriores, que era o padrão genérico e repetitivo da Marvel. Aqui não: as cores do filme carregam o tom pesado dos sentimentos de Peter Parker, além de ter várias alusões claras a cenas icônicas da trilogia de Sam Raimi. Ou seja, um fã como a gente. Não devemos apagar o passado, devemos aprender com ele, abraçar as boas ideias e investir num futuro melhor. Essa direção conta bem isso, com o Homem-Aranha aprendendo com suas perigosas evoluções a tirar o melhor de si mesmo, mesmo que o futuro seja assustador, num momento em que os filmes de herói e da Marvel cansaram, mas Homem-Aranha, assim como X-Men para mim, está acima do gênero. Os filmes da Marvel podem cansar, mas Homem-Aranha e X-Men vêm para mostrar que o problema não é o gênero, e podemos reafirmar isso observando como só da arrecadação da primeira semana já está chegando perto de um bilhão.![Spider-Man: Brand New Day — Destin Daniel Cretton [Review] | In Review Online](https://inreviewonline.com/wp-content/uploads/2026/07/SM-BND-Review-768x434.png)
O filme utilizou muitos sets e uniformes reais, ou seja, muito efeito prático, e isso faz com que os efeitos especiais estejam muito mais bem finalizados e que perpetuarão por mais tempo. Quando vemos que até Homem-Aranha 2, de 2004, e O Espetacular Homem-Aranha 2, de 2014, têm efeitos que são mais bem duradouros que os da trilogia de Jon Watts, isso diz muito sobre como uma direção mais focada em realismo cinemático ajuda a construir algo mais agradável, que foge do vale da estranheza e não envelhece tão mal. Esta é a primeira vez nesta saga em que nenhum momento os efeitos especiais me incomodaram, a ponto de eu nem perder tempo prestando atenção nisso. Tudo é lindo, e tudo conversa com o filme, assim como a edição sonora e a trilha sonora – embora eu esteja um pouco cansado do tema do Michael Giacchino. Acho que ele não empolga tanto, parece que vai, mas não vai. Estava na hora de Michael Giacchino aprender um pouco com Danny Elfman sobre como fazer uma trilha sonora épica como esse filme merecia.
Dito isso, Um Novo Dia pode não ser ainda, para mim, melhor que o melhor filme live-action do Homem-Aranha, que continua sendo Homem-Aranha 2 de Sam Raimi, mas está muito perto, talvez quase lá. É com certeza melhor que todos os estrelados por Andrew Garfield e todos os anteriores estrelados por Tom Holland. Espero que essa nova direção dite realmente o curso, não só para os próximos filmes do Homem-Aranha, mas dos heróis urbanos da Marvel também.


