Em 2019, alguém jogou no fórum 4chan uma foto banal: um escritório vazio, paredes amareladas, carpete desgastado, luz de néon. Sem janelas. Sem portas visíveis. Junto veio uma legenda que dizia, mais ou menos, que aquele era o lugar onde você ia parar se atravessasse a realidade por engano — um espaço que não deveria existir, mas existe. Assim nasceu uma das creepypastas mais potentes da história recente da internet. Para quem não está familiarizado com o termo: creepypasta é o nome dado às lendas urbanas que nascem e se espalham na web — histórias de horror construídas coletivamente, em camadas, por pessoas anônimas que nunca se conheceram e que constroem um universo colaborativo a partir de uma premissa inicial. Os Backrooms viraram exatamente isso: uma mitologia digital.
Em 2022, um adolescente de 16 anos chamado Kane Parsons filmou um curta no estilo found footage — filmagens encontradas — que mostrava um jovem entrando acidentalmente nos Backrooms enquanto filmava com uma câmera VHS. O vídeo viralizou. A série que veio depois ultrapassou 70 milhões de visualizações. E agora, esse mesmo Kane Parsons se torna o diretor mais jovem a comandar um filme da A24 — a mesma produtora de Hereditário, Midsommar e Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo. Não é pouca coisa. E a pressão que vem com isso, Backrooms: Um Não-Lugar aguenta bem.

O filme, ambientado em 1990, acompanha Clark (Chiwetel Ejiofor, de 12 Anos de Escravidão e Doutor Estranho), um vendedor de móveis que descobre no porão de sua loja um portal para um labirinto de corredores e salas que lembram escritórios infinitos, esvaziados de qualquer propósito humano. Fascinado e perturbado em igual medida, ele convence sua funcionária Kat (Lukita Maxwell) e o namorado dela, Bobby (Finn Bennett), a ajudá-lo a mapear aquele espaço impossível. Do lado de fora, uma terapeuta interpretada por Renate Reinsve — indicada ao Oscar por A Pior Pessoa do Mundo — vai atrás do paciente desaparecido. O elenco está à altura de um projeto que pede muito mais do que sustos.
O filme abre com sustos, inclusive com alguns deles eficientes, nenhum deles gratuito. Mas o terror de saltar da cadeira é só o ponto de entrada. Rapidamente, Backrooms migra para um suspense de ação onde a tensão não explode: ela permanece. Gruda. Segue o personagem pelos corredores e fica ali, do início até a cena final, como uma presença constante que você não consegue nomear mas sente o tempo todo. Parsons claramente entende que o horror dos Backrooms não é o monstro — é a sensação de que você pode estar andando em círculos e nem perceber.
E é aqui que o filme encontra sua camada mais interessante. O labirinto infinito dos Backrooms funciona como uma alegoria brutal sobre saúde mental: o que acontece com uma mente que não consegue sair do looping? Que repete padrões, revisita traumas, constrói hábitos que a mantêm presa em corredores que parecem diferentes mas levam ao mesmo lugar? Clark não é um herói de horror comum. É um homem que carrega algo que o filme vai revelando com cuidado, e esse peso se manifesta em como ele age dentro dos Backrooms, em como ele trata as pessoas ao redor, em como convence os outros a entrarem num lugar que ele mesmo não compreende totalmente.
O filme toca com firmeza na responsabilização da masculinidade tóxica, sem precisar virar panfleto para isso. Clark não é um vilão. É um homem que foi formado por uma cultura que não ensina homens a processar o que sentem, então eles processam para fora: em controle, em decisões que afetam quem está ao lado, em uma autoridade que se apresenta como liderança mas é, na verdade, fuga.
O labirinto não é o porão da loja. O labirinto foi construído antes disso.
A produção construiu mais de 2.700 metros quadrados de cenários físicos para recriar aquela estética de escritório dos anos 90, e a escolha de não depender de CGI para o ambiente principal é certeira. A frieza concreta das paredes amareladas, o carpete encardido, a luz que não tem sombra, tudo isso produz um desconforto que nenhum fundo verde reproduziria da mesma forma. É um filme que você sente na pele. Literalmente.

Se Backrooms performar bem nas bilheterias (e há motivos concretos para acreditar que sim, dado o tamanho da base de fãs e o peso da A24) pode abrir uma gaveta que a indústria ainda não escancarou: a adaptação de creepypastas como ponto de partida para o cinema de horror de autor. Pra quem jogou Control, jogo do universo de Alan Wake nos consoles, vai identificar muito bem a atmosfera. O universo das lendas digitais é vasto, tem fandoms consolidados e narrativas que já foram testadas e aprovadas por milhões de pessoas. A questão é sempre a mesma: o que você faz com o material além de reproduzir o susto que já funcionou na internet? Parsons responde com maturidade que não se esperava de um diretor estreante — e esse pode ser o sinal que faltava para outros cineastas olharem para esse arquivo.
Backrooms: Um Não-Lugar é o tipo de filme de terror que fica depois que a luz acende. Não pelo susto que deu, mas pela pergunta que deixa: de qual labirinto você ainda não conseguiu sair?
Backrooms: Um Não-Lugar estreia dia 28 de maio nos cinemas brasileiros.


