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Cara-de-Barro | Despretensioso body horror do Universo DC surpreende positivamente!

Cara-de-Barro | Despretensioso body horror do Universo DC surpreende positivamente!

Matheus Volnutt Por Matheus Volnutt
21 de outubro de 2026
Em DC, Filmes
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Eu fui sem pretensão alguma, nem mesmo se quer tinha visto o material promocional, para assistir ao novo filme da DC, Cara-de-Barro, e admito: fui surpreendido positivamente.

A trama acompanha Matt Hagen (Tom Rhys Harries), um ator em ascensão que, após ter o rosto brutalmente desfigurado por mafiosos locais, aceita se submeter a um tratamento experimental da Dra. Caitlyn Corr (Naomi Ackie). O procedimento, porém, desencadeia uma assustadora e dolorosa metamorfose física e psicológica, transformando seu corpo, aos poucos, em uma massa de lama viva. Sob a direção precisa de James Watkins, o longa ganha contornos de terror marcantes graças ao roteiro afiado de Mike Flanagan, nome que comentei recentemente no site como showrunner da nova série de Carrie, A Estranha, que constrói a ruína moral do protagonista com o mesmo toque sombrio de suas melhores produções.

Trata-se de uma verdadeira obra autoral em formato one-shot: uma narrativa essencialmente fechada e autocontida, que se recusa a atuar meramente como engrenagem para futuros projetos. Enquanto a maioria das adaptações de quadrinhos cede à tentação de criar pontes artificiais para um universo expandido, este longa brilha justamente ao focar em um drama pessoal e muito bem delineado. Inclusive, há uma piscadela genial para os leitores de HQs quando o filme fictício do protagonista compete com uma produção intitulada One Bad Day, referência direta à célebre linha de minisséries da DC sobre os momentos definitivos de ruína de seus personagens. A premissa de um estopim trágico rege o tom da narrativa do início ao fim, assumindo uma abordagem ainda mais pura e isolada do que a vista em Coringa.

No aspecto conceitual e estético, o filme se inspira na tradição clássica do body horror, assim como o recente indicado ao Oscar A Substância, mas remetendo aos clássicos melodramas de monstros e transformações da era de ouro do gênero, lembrando produções de baixíssimo orçamento que furavam bolhas e acabavam virando obras cult. A narrativa é incrivelmente pé no chão e focada na figura de um transmorfo se destruindo por dentro e por fora. Grande parte desse sucesso se deve ao trabalho impressionante da equipe de maquiagem e design de produção, além de uma interpretação visceral do protagonista, que sustenta com profundidade a angústia da perda de identidade. Surpreende também perceber que a escala técnica da produção é tão focada e artesanal que a transformação corporal do longa poderia ter sido realizada praticamente com efeitos práticos no século XX, com exceção apenas da manifestação monstruosa final.

A direção demonstra um domínio admirável de economia de meios e decupagem de cenas. A arquitetura espacial da narrativa é construída em uma estrutura minimalista baseada em apenas poucas locações principais: o set de filmagem em Coast City (que o filme canoniza com maestria como a Hollywood do Universo DC), a boate dos mafiosos em Gotham, a casa do protagonista, a clínica médica onde ocorre a trágica metamorfose e o departamento de polícia (GCPD). Essa ambientação contida fortalece a atmosfera sufocante e a sensação de claustrofobia. Além disso, a Gotham retratada aqui exibe uma cenografia, tom e até cartografia visivelmente idênticos aos de The Batman (não por acaso, já que Matt Reeves assina como produtor executivo), criando uma imersão atmosférica impecável que flerta o tempo todo com um universo noir-punk urbano.

Entretanto, o único revés real da obra reside na inevitável maldição do universo compartilhado. Segurando os spoilers, mais para o final, percebe-se um certo uma certa estranheza quando o roteiro força uma conexão um pouco apressada com o DCU principal de James Gunn. Há também uma pequena incoerência na escolha do nome e na transição final do personagem para um visual extremamente idêntico ao da animação Creature Commandos, gerando certa estranheza para quem acompanhava a trajetória daquele indivíduo em particular e esperava uma abordagem puramente autônoma (ou um aceno mais claro ao clássico Basil Karlo). Parecem decisões impostas por restrições executivas ou pela obrigação de amarrar pontas em uma franquia maior, contrastando com o frescor do restante da projeção.

Felizmente, essa interferência externa no clímax não chega a comprometer a experiência geral ou a estragar o peso dramático do filme. O resultado final é um filmaço autêntico, muito bem dirigido e que se sustenta com louvor pela própria força narrativa. Para quem pretende assistir, a melhor recomendação é ir sem a expectativa de ver um tradicional filme de boneco repleto de ganchos comerciais ou participações especiais, mas sim um estudo de personagem trágico, grotesco e envolvente.

Tags: BatmancaradebarroclayfacedcDCUgothamjamesgunnmikeflanaganthebatman
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Matheus Volnutt

Matheus Volnutt

Formado em cinema, profissional da área de produção audiovisual e criador da Terra Nérdica.

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