Precisamos Falar chega aos cinemas em 24 de setembro trazendo na bagagem uma Menção Honrosa conquistada no Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano, em Cuba. Dirigido pela dupla Pedro Waddington e Rebeca Diniz, o longa se estabelece como um thriller psicológico denso que adapta para a realidade brasileira contemporânea o aclamado livro O Jantar, do escritor holandês Herman Koch. Com roteiro assinado por Sérgio Goldenberg e supervisão de George Moura, a narrativa parte de um evento estarrecedor: um ataque brutal cometido por jovens adolescentes contra uma mulher em situação de rua, que coloca dois casais diante do espelho de suas próprias escolhas e omissões.
A grande força da adaptação reside na forma como desloca a premissa para o cenário político e social do Brasil atual. O roteiro promove um embate direto entre duas visões de direita — uma mais ao centro e outra acentuadamente extrema —, mostrando como essas fraturas ideológicas e de classe atravessam a criação dos filhos e deixam feridas profundas. Quando confrontados com a verdade insuportável do crime, a mesa de discussão se torna um campo de batalha moral: de um lado, a tentativa de preservação dos privilégios e a proteção cega aos filhos; do outro, a Justiça e o confronto com a própria consciência.

No plano das atuações e da construção de personagens, o filme apresenta um contraste evidente. O roteiro demonstra um esmero notável no desenvolvimento do núcleo jovem, interpretado por Thiago Voltolini, Cauê Campos, Guilherme Cabral e Julia Svacinna, desenhando com precisão as contradições e a frieza que permeiam aquela juventude. Cada um com seus objetivos e ambições, nos fazem refletir sobre os caminhos que querem trilhar dado ao que recebem de seus pais.
Já no elenco adulto, falta um pouco desse mesmo cuidado de aprofundamento. Ainda assim, é Marjorie Estiano quem toma conta da projeção. Ao lado de Alexandre Nero, Hermila Guedes e Emílio de Mello, a atriz rouba a cena a cada aparição, construindo uma figura magnética que encarna com maestria aquela típica personagem que “amamos odiar” sendo calculista, incômoda e absolutamente impossível de desviar o olhar.

A direção opta por um ritmo bem lento, apostando na construção progressiva do incômodo e na sustentação dos silêncios em vez do sobressalto rápido. Essa escolha cadenciada ajuda a maturar o suspense, mas cobra seu preço na reta final. O clímax parece carecer de um impacto maior, deixando de explorar mais a fundo as repercussões sociais e políticas que a escalada daquela história naturalmente pediria, bem como os desdobramentos práticos na vida daquelas duas famílias.
No entanto, mesmo com essa hesitação no desfecho, Precisamos Falar se firma como uma obra reflexiva e dolorosamente pontual sobre o atual momento político do país. É um filme que recusa caminhos fáceis para expor as vísceras da elite nacional, lembrando que a omissão e a polarização desmedida não são apenas discursos abstratos — elas custam vidas e deformam o futuro de quem ainda está em formação.


