Em abril deste ano, escrevi uma matéria sobre a LUX Tour de Rosalía com os olhos brilhando diante de tudo o que acompanhava online. Ontem, tive a oportunidade de finalmente assistir ao espetáculo assinado pela artista catalã e meus olhos não somente brilharam em cada música, como também choraram de emoção em boa parte da noite. O que foi apresentado na Farmasi Arena foi a consagração absoluta de uma estrela que domina a grandiloquência não para se elevar, mas para nos conduzir a uma jornada profunda sobre a beleza e a complexidade do espetáculo.
Há algo profundamente envolvente, e meticulosamente calculado, em transpassar a transcendência da espiritualidade em uma experiência imersiva de câmara. Com a turnê LUX, Rosalía amadurece a urgência crua de Motomami para vestir o figurino de uma bailarina operística moderna, navegando entre o clássico e o vanguardista. Não estamos diante de um show pop tradicional, mas de um manifesto cênico onde a sentimentalidade é celebrada como arte.
O espetáculo é apresentado como uma peça teatral. A abertura, com a orquestração de “Overture” (O Fantasma da Ópera), executada por músicos em um palco em formato de cruz, traz uma atmosfera solene para dentro da arena, preparando o tom dramático e grandioso que define o conceito de LUX. Quando a caixa centralizada se abre, revelando Rosalía como uma bailarina de caixinha de música, o público presencia o nascimento de uma obra de arte viva. Em pose e traje de bailarina, ela entoa a primeira frase de “Sexo, Violencia y Llantas” e a arena responde em um coral uníssono. A cantora, em ponta, domina cada movimento com uma precisão técnica impressionante; o preparo físico e o cuidado com a leveza revelam o quanto ela se dedicou para criar essa atmosfera em que somos convidados a mergulhar.
Este ato inicial ergue a tal “catedral de vidro”, jogando o espectador em uma estética densa e magnética. A relação complicada entre amor e divindade é tratada com uma sensibilidade quase sagrada em “Mio Cristo Piange Diamanti” (“Meu Cristo chora diamantes”). A dor, aqui, não é apenas vendida; ela é lapidada e transformada em uma gema preciosa sob os refletores, elevando o sofrimento a um nível de beleza inalcançável.
No segundo ato, o show abraça a vibração da cultura clubber e a experimentação urbana que a consagraram. “Berghain” evoca o templo da liberdade de Berlim, enquanto faixas como “SAOKO” e “La Fama” conectam a dualidade de sua era anterior com uma nova maturidade artística: a celebração da constante reinvenção do amor e de si mesma.
O clima frenético se desfaz no terceiro ato, revelando um confessionário íntimo. A participação especial de Marina Sena conferiu um toque especial ao momento que desabafou sobre um relacionamento aberto que não foi desejado inicialmente mas que foi muito bem aproveitado. Com arranjos orgânicos e vulneráveis, “La Perla” se erige não apenas como uma canção, mas como uma instalação artística viva. Visualmente, o palco se transforma em um tableau vivant (quadro vivo), no qual a cantora parece flutuar em um limbo particular.
Antes de aprofundar ainda mais essa atmosfera confessional, Rosalía protagoniza um dos instantes mais arrebatadores da noite ao pausar a grandiosidade cênica para conversar abertamente com a plateia. Em uma troca genuína e calorosa, ela fez questão de ouvir histórias do público carioca, criando um abraço coletivo que quebrou qualquer distância entre a estrela e os fãs. Essa pausa afetuosa serviu como a introdução perfeita para a enigmática e magnética “Sauvignon Blanc”.
A sequência seguiu com a releitura de “Can’t Take My Eyes Off You” entoando uma nostalgia pop universal e de momento de apreciação à arte, no qual Rosalía canta atrás de uma moldura enquanto seus fãs à admiram. O ato é finalizado com a intensidade de “La Yugular” e expõe a vulnerabilidade física e o risco de se entregar por completo ao amor. Este bloco é, sem dúvida, o momento mais belo do show, um instante onde a performance se torna religiosamente divina.
No palco secundário, o quarto ato ganha forma em “La Rumba del Perdón” e explode na catarse de “CUUUUuuuuuute”. É a energia máxima da noite: uma agressividade eletrônica e festiva que faz a arena inteira vibrar, onde o público finalmente entrega tudo o que ainda não tinha entregado em meio aos gritos e cantos, o corpo. O momento se tornou numa celebração coletiva e inesquecível.
O delírio final, com hinos de superação como “Despechá” e “Bizcochito”, funciona como um alívio vibrante, a celebração perfeita que encerra o rito de passagem. Concluir o show com “Magnolias” mostra a beleza delicada da natureza e das emoções humanas mais puras.
Rosalía provou no Rio que a sua maior audácia não está apenas em fazer dançar, mas em sua capacidade única de estilhaçar a pista de dança e nos convidar a enxergar, com admiração, a beleza indescritível que existe em cada caco.


