No Rastro do Perigo (Troublemaker) chega como lançamento exclusivo do Adrenalina Pura+ carregando nas costas algo que filmes de ação de baixo orçamento sempre precisam provar: que a falta de dinheiro pode ser compensada por talento, ritmo e intenção. Aqui, o resultado é parcial — e esse “parcial” pesa bastante.
O filme se apoia, visivelmente, na tradição do blaxploitation, aquele movimento cinematográfico dos anos 70 que colocou homens e mulheres negros no centro das narrativas de ação, crimes e rua, com atitude, estilo e uma certa irreverência que o cinema mainstream nunca teve coragem de ter. A inspiração está lá e merece ser reconhecida. Mas homenagear um gênero exige mais do que referenciá-lo — exige entendê-lo de dentro para fora.
Um dos pontos positivos que vale registrar: o elenco é composto majoritariamente por atores e atrizes acima dos 40 anos. Em um mercado que trata a maturidade como prazo de validade, isso é, de fato, uma escolha que se destaca. O problema é que a produção não faz muito com esse potencial. As atuações ficam no território do mediano para preguiçoso: não são desastrosas, mas também nunca chegam a te prender emocionalmente. Falta engajamento — tanto da câmera com os atores, quanto dos atores com a trama.
E a trama é um problema por si só. O roteiro, que começa com um tom de leveza e humor razoavelmente funcional, vai perdendo o fio no meio do caminho. A narrativa se enrola, cria ramificações que não se resolvem com clareza e deixa o espectador mais confuso do que instigado. A leveza do humor até ameniza alguns momentos, mas não consegue sustentar uma estrutura que claramente precisaria de mais uma rodada de revisão.

As cenas de luta, no entanto, são o destaque real do filme. A coreografia é bem executada, com energia e presença física que fazem lembrar por que esse gênero ainda tem apelo. Quando o filme está em movimento, ele respira. Mas isso em 80% do filme, pois ainda possuem ao menos duas cenas em que a coreografia não salva. A montagem e edição tem momentos de corte abruptos que também não ajudam para que quem assista sinta a adrenalina prometida.
O mesmo não se pode dizer do CGI do terceiro ato. Grosseiro é pouco. Em um filme que funcionava dentro das suas limitações de orçamento, a opção por efeitos digitais evidentemente baratos quebra completamente a imersão que as cenas de ação construíram para o ato final. Era melhor ter ido outra direção — qualquer outra.
No Rastro do Perigo não é um desastre. É um filme que sabe de onde veio, tem intenções válidas de representatividade e entrega momentos pontuais de diversão. Mas falta profundidade, falta emoção e falta coragem para abraçar de verdade o legado que invoca. O canal Adrenalina Pura+ pode ter encontrado um produto funcional para a grade, mas não um título que vai ficar na memória de ninguém.


