Tem filmes que a gente simplesmente deixa passar. Seja por preconceito, seja por timing, seja porque a internet inteira resolveu que aquilo não vale a pena. Need for Speed é exatamente esse tipo de caso.
Eu mesmo só fui assistir agora, para a gravação do podcast Créditos Finais sobre filmes baseados jogos, largado no catálogo do Mercado Play — e a surpresa foi real.
Logo de cara, a sensação é inevitável: É a mesma trama de Speed Racer? É isso mesmo? E não é viagem. A estrutura é bem parecida mesmo — rivalidade, tragédia, redenção e uma grande corrida como clímax. Só que aqui tudo é mais pé no chão (dentro do possível pra um filme de corrida que ignora completamente leis de trânsito e bom senso).
Vale lembrar que o filme é estrelado pelo Aaron Paul, numa época em que ele estava em alta por causa de Breaking Bad e basicamente sendo colocado em tudo quanto é projeto. E acho que parte do meu preconceito com o filme veio daí. Eu olhava e pensava: Estão tentando fazer dele um Paul Walker genérico. E isso pesa ainda mais porque a própria franquia Need for Speed já bebe muito de Velozes e Furiosos nos jogos. Então, quando você junta tudo — corrida ilegal, drama pessoal e um protagonista nesse molde — a comparação fica inevitável.

E sim, o filme tem umas escolhas meio questionáveis. Tem câmera lenta completamente gratuita — tipo aquela clássica cena tentando transformar uma entrada de personagem em algo épico… sem ter muito motivo pra isso. E aí entra a Dakota Johnson, que por um momento parece até que não é ela de tão deslocada que tá. Eu mesmo não reconheci de primeira e achei que era alguma sósia genérica da atriz.
Mas o curioso é que, mesmo com esses tropeços, o filme começa a te ganhar. Primeiro porque ele entende bem de onde vem. Não é só um filme com o nome Need for Speed. Ele claramente bebe de fases específicas da franquia — especialmente Need for Speed: Hot Pursuit, Need for Speed: Most Wanted e Need for Speed: The Run. E isso aparece na estrutura: começa como corrida de rua, evolui pra fuga policial e termina numa grande corrida que funciona como jornada. E funciona.
O ponto que mais surpreende é que o filme tem coragem de dar consequência pras próprias loucuras. Não é aquela fantasia onde todo mundo dirige feito maluco e sai ileso. Aqui, na metade da história, dá ruim — e dá ruim de verdade. Personagens perdem tudo, planos vão pro saco, e aquela sensação de eles vão dar um jeito simplesmente não vem. Isso muda completamente o tom. De repente, você tá investido.
E quando o filme engrena, ele engrena de verdade. As corridas são bem filmadas, tem peso, tem tensão. Não é só CGI vazio — existe uma tentativa clara de dar sensação física pra velocidade, o que já coloca ele acima de muita coisa do gênero. Claro, ainda tem momentos meio absurdos. Tipo decisões completamente irresponsáveis no trânsito sendo tratadas com naturalidade ou umas interações meio ok, isso aqui foi rápido demais. Mas, honestamente? Quando você já tá comprado pela proposta, isso vira parte do pacote.
Só que, ao mesmo tempo, tem uma sensação que vai crescendo ao longo do filme: ele poderia ser mais. Eu falei antes que ele lembra Speed Racer, só que mais pé no chão — e é justamente isso que às vezes joga contra. Essa tentativa de ser mais contido, mais realista, acaba tirando um pouco da identidade. Em vários momentos, parece que o filme segura o freio quando poderia simplesmente acelerar de vez.
Porque no fim das contas, dá a sensação de que faltou abraçar a loucura. Velozes e Furiosos virou o fenômeno que é justamente porque entendeu que não precisa se limitar — ele usa o absurdo a favor do espetáculo. E talvez Need for Speed funcionasse ainda melhor se tivesse ido mais nessa direção, explorando tudo que o cinema permite fazer sem medo de exagerar. Do jeito que é, ele funciona… mas poderia ter sido muito mais memorável.
No fim, fica até um gosto meio agridoce. Porque Need for Speed não é um filme perfeito — longe disso. Mas ele é muito mais divertido, honesto e funcional do que a fama dele sugere. E talvez o maior erro tenha sido o timing. Na época, ele saiu no meio da saturação de filmes de carro e comparações inevitáveis. Hoje, assistindo sem esse peso, ele funciona muito melhor. Dá até aquela vontade de ver uma continuação que nunca veio.
E talvez esse seja o maior elogio que dá pra fazer: um filme que você não dava nada… e que termina te deixando querendo mais.


