Após o turbilhão experimental de Motomami, Rosalía decidiu que seu próximo passo seria o “sagrado”. O álbum LUX, lançado no final de 2025, não é apenas um disco de pop. É um manifesto ambicioso que funde música clássica, ópera e eletrônica experimental em 13 idiomas diferentes. Agora, com o início da LUX Tour em 2026, estamos vendo como essa visão se traduz em um espetáculo que parece ter saído de uma catedral futurista.
Do asfalto para o altar
A mensagem central de LUX é a desaceleração. Em um mundo de vídeos de 15 segundos, Rosalía pede foco. A nova era é inspirada na arquitetura barroca, em santas católicas e na grandiosidade das orquestras (ela gravou com a Sinfônica de Londres). Rosalía estudou a fonética de 13 línguas (incluindo latim, chinês e ucraniano) para criar uma experiência universal. No palco, isso se transforma em um coro polifônico que dá ao show um tom de ritual religioso.
A Turnê LUX: O que está acontecendo no palco?
Os primeiros shows da turnê, que foram em Lyon, Zurique e Paris, revelaram uma Rosalía mais teatral do que nunca, mas com uma presença de palco avassaladora. A estética da era é o “Angelic-Core” e o Barroco Moderno. Ela usa silhuetas estruturadas, capas rendadas e até asas de anjo estilizadas (desenhadas por Jose Carayol). É moda de alta-costura aplicada ao storytelling pop.
Uma das maiores discussões entre os fãs é a ausência de músicas do álbum El Mal Querer. A setlist é dominada quase inteiramente pelo LUX, com alguns hits de Motomami (como “Saoko” e “Bizcochito”) ganhando novos arranjos com violinos e instrumentos de sopro. Ela está forçando o público a entrar no seu novo mundo, sem olhar para o passado. O single “Berghain” (parceria com Björk) é o clímax do show, onde a ópera encontra o techno industrial de Berlim sob luzes estroboscópicas brancas, uma experiência sensorial pura.
No palco, a coreografia, que contém Dimitris Papaioannou como diretor criativo, se torna a tecnologia principal, utilizando movimentos orgânicos e técnicos para construir um espetáculo que ignora telões de IA e truques de algoritmos. Essa nova fase é uma lição de worldbuilding, onde cada detalhe, da ópera polifónica à dança inspirada em esculturas renascentistas, serve para criar um universo autêntico e tátil, provando que, em 2026, a maior inovação artística ainda reside na capacidade de levar a técnica e o corpo humano ao seu limite criativo.
Por que isso importa para a Cultura Pop?
Rosalía está seguindo os passos de artistas como Björk e Kate Bush, priorizando a visão artística em detrimento do hit comercial óbvio. Para quem ama conceitos complexos e teorias, a era LUX é um prato cheio: cada figurino, cada mudança de idioma e cada referência visual (do cinema de Almodóvar a pinturas sacras) serve para construir uma mitologia própria.
A turnê LUX não é apenas um concerto, é uma instalação de arte performática. Ela ensina ao público a arte da paciência e a apreciar o lore de um álbum. Isso é vital numa era em que necessita do resgate da apreciação dos álbuns por inteiro. Além disso, ao colocar um beat de reggaeton desconstruído sob um coro gregoriano, ela valida a cultura de rua como algo digno de museu e, ao mesmo tempo, tira a música clássica da “torre de marfim”. Abrindo caminho para que novos artistas parem de tentar se encaixar em gêneros específicos e passem a criar os seus próprios ecossistemas sonoros.
