‘Ói, ói o trem,
vem surgindo de trás das montanhas azuis, olha o trem.
Ói, ói o trem,
vem trazendo de longe as cinzas do velho éon.
Ói, já é vem,
fumegando, apitando, chamando os que sabem do trem.
Ói, é o trem,
não precisa passagem, nem mesmo bagagem no trem . . .’
— Raul Seixas
A casa no fim da Rua dos Perpétuos era engolida pelo tempo. Um fóssil de madeira e telhas marselhesas cuspido de volta pelo pântano. Era mais velha do que todas as lembranças que Pedro tinha dos verões passados com os avós. Suas janelas empenadas eram como olhos míopes, e o portão de ferro rangia um lamento agudo ao menor toque, um som que ele sentia nos próprios dentes. Agora, depois de doze anos vivendo num apartamento de dois quartos no Jardim Primavera, um condomínio-fortaleza com piscina verde-água e guarita, seus pais haviam decidido se mudar para Pássaro Branco, distrito de Barão do Vale. Convencidos de que a mudança seria boa para todos: mais espaço, ar puro e longe do barulho incessante do trânsito. Para ele, no entanto, aquilo parecia o fim do mundo.
Se, no antigo bairro, a vida se esvaía após as 20h, as ruas se tornando desertas e os portões eletrônicos descendo com um ruído metálico de fim de expediente, em Pássaro Branco o calor humano era uma entidade viva e noturna. Na primeira noite, ele espantara-se com o burburinho que vinha da rua: o som de garrafas de cerveja tilintando, o riso solto dos tios no quintal ao lado, o cheiro de churrasco misturado ao aroma úmido do mato. Era uma vibração orgânica, um pulso que o apartamento no Jardim Primavera há muito havia perdido. Mas por baixo daquela aparente descontração, Pedro captou uma nota falsa. Havia um hábito estranho nos adultos: às 22h em ponto, pareciam obedecer a um toque de recolher não dito, as vozes se baixavam, as luzes das varandas se apagavam e as portas se trancavam com um clique decisivo. A alegria parecia ensaiada, e o silêncio que a sucedia era pesado, expectante, como se todos estivessem esperando por algo.
E então, por um segundo naquela primeira noite ali, Pedro achou que ouviu algo vindo do mato. Não era vento. Era pesado demais pra ser o vento.
Ao amanhecer, a Dona Mirtes, da casa ao lado, apareceu no portão com um tabuleiro de brigadeiros.
— Ói, queridos, sejam bem-vindos! Tá precisando de alguma coisa, é só gritar! Aqui é tranquilo, viu? Só não chega perto dos trilhos depois das dez, que o vento fica meio estranho, dá um frio na espinha… — disse, enquanto o marido, Seu Oscar, consertava um carro velho na calçada e concordava com a cabeça. — Depois das dez ninguém fica na rua, viu? — disse, ainda sorrindo.
Foi então que Pedro notara os antigos trilhos, velhos e enferrujados, cortando a paisagem, como uma cicatriz esquecida atrás do quintal. Com ruínas do muro paralelo, como uma fronteira entre o vivo bairro e o ermo Mato Sabino. Havia marcas na terra, fundas demais para serem de pneus. Como se algo pesado tivesse sido arrastado dali para dentro do mato.
Lembrou-se dos verões passados com o vovô Pedro e a vovó Isabel, sentados na calçada, assistindo os trens passarem enquanto tomava café e comia pão fresco. A avó havia partido há alguns anos, e sua falta era um vazio silencioso na casa, mas a lembrava com um carinho pungente. Era ela quem contava as histórias mais legais e o defendia das broncas do avô. Naquela época, os vagões eram parte do fundo musical da sua infância, o som constante que embalava os dias e noites. Agora, os trilhos morriam. Sufocados pelo avanço implacável da vegetação sombria do Mato Sabino, o pântano que o trilho separava do bairro.
— Por que não passa mais trem por aqui? — perguntou ele na mesa do café da manhã, onde todos estavam reunidos.
O tio Zeca, que segurava uma fatia de pão com manteiga, parou por um instante, seu olhar fugindo rapidamente antes de responder:
— Esses trilhos estão desativados há anos, Pedrinho. Desde o acidente na fábrica.
Pedro esperou. Ninguém completou.
— Que acidente? — ele insistiu.
A tia Tessa colocou a xícara do avô na mesa com um cuidado ensaiado. Seus olhos não encontraram os dele.
— Foi uma tragédia — a tia Tessa, que colocava mais café na xícara do avô, interveio, sua voz baixa e carregada. — O trem descarrilou e bateu na fábrica no fim da linha. A estação, a fábrica… tudo foi destruído.
O avô Pedro Zacarias largou o pão com manteiga no prato e deu uma palmada na mesa, fazendo as xícaras tilintarem.
— Ah, morreu gente pra caramba! Trabalhadores, maquinistas, até uns coitados que estavam perto da estação — ele balançou a cabeça, mas o tom não era de pesar profundo, era de quem já tinha contado aquela história tantas vezes que o horror virou causo. — Foi um dia triste, sim. Dos piores que essa rua já viu. Mas fazer o quê? A vida segue.
E pegou de novo o pão.
O pai de Pedro, João Francisco, que até então estava calado, apenas mexendo no açúcar do café com um ruído irritante de colher na porcelana, complementou com um tom direto e final:
— Depois disso, ninguém quis reconstruir a estação ou reativar os trilhos. — Ele não olhou pra ninguém enquanto falava, só continuou mexendo o café. — Falaram que seria mais barato e mais seguro só abandonar tudo.
— Eu trabalhava lá — disse o tia Zeca, sem olhar pra ninguém. — Na fábrica. Por muita sorte eu não estava nesse dia.
Pedro coçou a cabeça, sentindo o arrepio de um segredo pairando sobre a mesa. Sua priminha, Mariana, e a sua irmãzinha, Isabelle riam no quintal, alheias ao peso da conversa.
— E o que tem no lugar agora?
O tio Zeca lançou outro olhar significativo para o avô, quase uma consulta silenciosa, antes de responder:
— Matagal só. O Mato Sabino tomou conta de tudo. E é melhor deixar quieto.
— Mas… ninguém vai lá? É só mato? — insistiu, a curiosidade superando o desconforto.
A tia Tessa fechou a cara e respondeu com uma firmeza que não admitia discussão:
— É perigoso, Pedro. Não vá lá. Ponto final.
Hesitou, sentindo o gelo na voz dela.
— Perigoso como? Amaldiçoado? — perguntou, sarcástico, tentando quebrar a tensão.
Mas percebeu que ninguém riu. Ninguém sequer esboçou um sorriso. O avô Pedro, que até então só ouvira, colocou a xícara de café na mesa com um leve baque que soou como um trovão naquela cozinha silenciosa.
— Não sei de maldição, menino — disse o velho, sua voz um sussurro áspero. — Mas o que sei é que coisas ruins aconteceram lá. Tem coisa que não foi embora com o acidente.
O tio Zeca, tentando aliviar a tensão com uma risada forçada, disse:
— É, Pedro. Melhor você ficar com seus joguinhos no computador do que dar sopa por aquelas bandas.
Não insistiu, mas aquele silêncio cúmplice, a troca de olhares rápidos e cheios de significado, não saiu de sua mente. Era como se todos naquela mesa compartilhassem um segredo doente, um tumor que ninguém queria examinar.
O isolamento e o estranhamento levaram Pedro a se refugiar até altas horas no computador, já conectado à banda larga naquela época. Super Mario, Donkey Kong, Megaman X ou o Sonic correndo pela tela, através de seus emuladores de consoles, eram um alívio para o vazio e para a sensação incômoda de que havia algo profundamente errado naquele paraíso familiar.
Nas tardes de sábado, ele e o tio Zeca trocavam músicas, um ritual que criava uma ponte entre seus mundos. Faixas de MP3, de álbuns recém-lançados que Pedro baixava em sites precários, por clássicos do rock que seu tio tinha em CDs antigos e arranhados. Iam de Linkin Park a The Cure enquanto lavavam o monza velho do tio. A rotina calma, um verão perfeito congelado no tempo.
Mas, numa noite, tudo mudou.
Naquela noite, enquanto tentava derrotar Sigma em Megaman X, uma luz pálida e trêmula tremeluziu do lado de fora, projetando sombras dançantes na parede de seu quarto. Espiou pela janela, o coração dando um salto. Lá estavam eles: os trilhos abandonados, agora iluminados por uma luz fantasmagórica. E algo que não devia estar ali se movia sobre eles. Um trem, negro e silencioso como um segredo que deveria permanecer enterrado, deslizava sem fazer um único ruído. Suas janelas eram escuras, vazias. E sobre os vagões, uma figura se movia com uma estranha fluidez, mais um vulto do que um homem. Quando a figura virou o rosto em direção à sua janela, ele não viu feições, apenas uma mancha indistinta na penumbra. Mas era o suficiente. Ele recuou da janela, o coração disparado como um tambor de guerra, o suor frio escorrendo pelas suas costas. Seu mundo seguro havia rachado, e a realidade sombria de Pássaro Branco respirava agora do outro lado do vidro.
A manhã seguinte trouxe consigo a luz crua do dia, dissipando um pouco o terror noturno, mas não a sua convicção. No café da manhã, com a família reunida, tentou alertar sobre o que vira:
— Não passa mais trem por aqui, Pedro — disse o tio Zeca, tentando desviar o assunto com um tom leve forçado demais para ser verdadeiro.
— Mas eu vi! — insistiu, a voz mais firme do que se sentia por dentro. O cheiro do café e do pão fresco de repente ficou pesado, opressivo.
Seu pai baixou o jornal e balançou a cabeça com uma risada curta, nervosa.
— Vai ver foi só sua imaginação, filho. Ou um sonho, quem sabe? Essa mudança toda, o ar diferente… afeta a gente.
Franziu o cenho, sentindo uma faísca de frustração.
— Não foi sonho! Eu estava acordado jogando!
A tia Tessa, que passava manteiga no pão de Mariana, lançou um olhar rápido e carregado para o avô, que permanecia calado, seus dedos nodosos envoltos na xícara de café como se buscassem calor de algo que não estava mais lá.
— Talvez tenha sido… sei lá, um trem fantasma — disse Tessa, a voz um pouco mais suave, quase condescendente.
— Se bem que o Seu Paulo já falou desse trem-fantasma aí também — acrescentou o avô.
— Ah, pai! — contra-argumentou o tio Zeca, a risada agora alta e artificial. — O Seu Paulo é um bêbado maluco!
Todos na mesa riram, um coro forçado que não chegou aos olhos. Todos menos Pedro, que olhou de um rosto para o outro. Apesar das risadas nervosas e das desculpas improvisadas, algo na relutância deles, na forma como seus olhares se encontravam e fugiam, entregava uma verdade incômoda: eles sabiam mais do que diziam. Havia um segredo ali, um osso enterrado no quintal de Pássaro Branco que ninguém queria desenterrar.
As noites seguintes foram de vigília. Pedro jogava em seu computador, mas seus olhos estavam constantemente nos trilhos, na janela escura que era um portal para o desconhecido. A espera foi recompensada, ou amaldiçoada, quando a luz pálida reapareceu. Desta vez, ele não hesitou. Correu pelo corredor escuro e sacudiu os pais.
— Acorda! Pai, mãe, vocês precisam ver! Está passando de novo!
— Pedro, tá tarde! Vai dormir, pelo amor de Deus! — disse a mãe com a voz grossa de sono e exasperação, virando de costas.
No dia seguinte, a tensão pairou sobre a casa como um odor ruim. Seu pai o encarou sério durante o almoço e decretou:
— Você precisa sair de casa, Pedro. Ficar trancado nesse quarto não é bom. Vê se não tem ninguém da sua idade brincando de pique-pega na rua…
— Pai, ninguém da minha idade brinca de pique-pega mais — retrucou, sentindo-se infantilizado.
— Essas coisas que você tá imaginando é porque você fica acordado até tarde vendo coisa na tela do computador. Vai andar de bicicleta, sei lá! Respira um ar que preste!
Pedro não se convencia. Ele sabia, com uma certeza que ia além da razão, o que tinha visto. E, mais do que nunca, sentia que algo o chamava daqueles trilhos enferrujados, um segredo enterrado que sussurrava que apenas ele podia desenterrar.
A relutância em explorar aquele lugar estranho era grande, mas a ordem da mãe para comprar pão era uma lei superior. Ele se viu, então, caminhando pela Rua dos Perpétuos sob a luz da tarde. O bairro durante a tarde era uma mistura de silêncio e nostalgia. Crianças brincavam descalças na terra batida, seus gritos ecoando estranhamente nas ruas vazias; os idosos eram vultos silenciosos sentados nas calçadas, seus olhos seguindo-o com uma curiosidade que beirava a vigilância.
Foi no mercadinho do Seu Zé, um reduto de poeira e histórias antigas, que ele a viu. Buscando algo no balcão, ela parecia de outro mundo, uma figura cortada de uma revista e colada na realidade monótona de Pássaro Branco: leve maquiagem escura emoldurando olhos vivos e inteligentes, cabelo loiro-platinado ensebado caindo em camadas irregulares, e uma camiseta do Ramones, puída e perfeita. Pedro não conseguia desviar o olhar. Havia algo nela, uma aura de intensidade e mistério, que o prendia ali como uma mariposa hipnotizada pela chama. Ela olhou para ele por um breve instante, ou apenas imaginou, desejou. Um sorriso fugidio, uma memória desperdiçada. Então, como um fantasma, ela se foi, deixando para trás apenas o cheiro de cigarro e uma sensação de vazio.
De volta à casa, não parava de pensar nela. Era uma obsessão silenciosa, mas inescapável, um refúgio dos pensamentos sobre o trem e o Mato Sabino. Ele aproveitou um momento em que o tio Zeca assistia TV para perguntar, tentando soar casual:
— Vocês sabem quem é a menina loira que parece meio roqueira aqui na rua?
O tio, sem tirar os olhos da tela, respondeu com desinteresse:
— Deve ser a Lorena. A neta do Seu Zé da lojinha. Você e ela eram amigos quando crianças, lembra?
A revelação o pegou desprevenido. Pedro escavou sua memória e, aos poucos, como flashes de um filme antigo, as lembranças vieram à tona: brincadeiras de correr pelas ruas de terra, risos afogados pelo apito de trens reais, explorações audaciosas nos limites do quintal. Aquela vida pertencia a outra pessoa. A garota que ele viu agora, com sua aura de rock e desafio, não tinha nada a ver com a amiga de infância de vestido sujo de grama. Ainda assim, algo nele, uma nostalgia profunda ou talvez a solidão, queria se reconectar, um desejo inexplicável de resgatar um fio do que foi perdido.
Nos dias seguintes, se oferecia para ir comprar tudo o que precisasse na lojinha, um falso consumismo movido pela esperança de vê-la novamente. Certa tarde, com o coração batendo forte, puxou conversa com o Seu Zé, um homem cujo rosto era um mapa de todas as histórias do bairro.
— Lembra de mim, Seu Zé? Eu sou o neto do Seu Pedro. Eu brincava com a Lorena quando era pequeno.
Seu Zé sorriu, um sorriso nostálgico que chegou aos seus olhos cansados.
— Ah, Pedrinho! Claro que lembro! Você e a Lola… vocês eram dois pardais no mesmo ninho. — Ele baixou a voz, como se compartilhasse um segredo. — Mas ela mudou muito, sabe? Cresceu. Agora, só está interessada em livros de mistério, nessas músicas… tristes, dramáticas, que vocês jovens gostam.
As palavras de Seu Zé, especialmente aquela última parte, deixaram-no inquieto. Mas em vez de afastá-lo, alimentou sua curiosidade. Ele começou a frequentar a máquina de Arcade da loja com um objetivo mais claro, usando os jogos como isca. Foi assim que conheceu João Marcos, um garoto de olhos cansados e ombros um pouco curvados, que compartilhava seu gosto por videogames e por uma fuga silenciosa. Aos poucos, os dois se tornaram amigos, unidos pela solidão compartilhada. Marcos também estava procurando algo: uma forma de escapar da rotina tumultuada de sua família, das brigas que conseguia ouvir através das paredes finas de sua casa.
Quando Pedro chegou em casa, o avô estava sentado na varanda, uma cerveja na mão, contando alguma história para o tio Zeca que fazia os dois rirem alto.
— Aí o Tonho caiu na vala, cheio de cachaça, e ficou lá cantando moda até amanhecer! — Seu Pedro deu uma gargalhada rouca. Viu o neto e abriu os braços. — Pedrinho! Vem cá, menino! Tava com saudade!
Pedro se aproximou, meio sem jeito. O avô o puxou pelo braço e o fez sentar ao lado.
— Tá gostando do bairro? Já arrumou uma namorada? — Ele piscou. — A Lorena é bonita, hein? Fica esperto.
— Vô! — Pedro corou.
O avô riu de novo, batendo no joelho.
— Deixa o menino, pai — disse o tio Zeca, rindo também.
— Deixar nada! Eu com doze anos já tinha namorada, já tinha levado uns cascudos do meu pai, já tinha feito cada coisa…
Pedro não sabia onde enfiar o rosto, mas no fundo, gostou. Fazia tempo que não via o avô tão animado.
Em uma manhã de sábado, enquanto chegavam para o fliperama, um outro garoto da idade deles já aguardava, com um ar de quem preferia estar em qualquer outro lugar. Marcos o cumprimentou:
— Ei, Lucas!
O jovem Lucas, da idade deles, vestindo um pijama do Batman e chinelos, acenou de volta com um movimento mínimo de cabeça, sem entusiasmo.
Pedro perguntou em voz baixa:
— Quem é esse?
— É o Lucas. Neto do Seu Zé também. Mas ele não mora aqui, só vem aos fins de semana. Mora com a mãe em outro bairro.
— Então ele é primo da Lorena?
Lucas, claramente sem se importar com a pergunta ou com a presença deles, apenas olhou para a tela do fliperama. Ele fora obrigado pelo pai a tentar interagir, pois toda vez que ia para Pássaro Branco, se trancava no quarto. Seu avô, Zé, achara uma boa ideia ele fazer amizade com os novos garotos. Só de birra, Lucas nem se arrumara, foi para a loja com a roupa que acordara, um protesto silencioso.
Enquanto jogava Street Fighter na máquina isolada, Pedro, tentando descontrair e incluir o novato, começou a falar de algo que sabia ser um território comum com Marcos. Ele contou-lhe sobre o Orkut, esse novo site onde as pessoas se conectavam, um mundo virtual que parecia tão distante daquele lugar.
— Tem uma comunidade lá, a Discografias, que tem todas as músicas do mundo! Eu baixo tudo e gravo em CDs para escutar no rádio do Monza do meu tio.
Enquanto ele falava, Lucas, que estava um pouco afastado, de repente se aproximou. Com uma expressão séria que contrastava com o pijama infantil, disse:
— Eu quero entrar no Orkut só para fazer parte da comunidade Eu Amo Red Hot Chili Peppers.
Pedro, surpreso, olhou para ele e começou a rir, não de deboche, mas de genuína descoberta.
— Então o garoto mudo gosta de rock também?
Lucas respondeu em gesto, um canto da boca se erguendo num quase-sorriso, e o clima começou a mudar.
Os três, agora, começaram a jogar juntos, a conversa fluindo para suas bandas e músicas favoritas, uma irmandade instantânea forjada em acordes distorcidos e pixels piscantes.
Foi aí que a ideia surgiu, impulsionada pelo desejo silencioso de Pedro. Ele queria colocar uma música que fosse uma deixa, um sinal para Lorena. Virou-se para Lucas:
— E a tua prima, a Lorena… ela gosta de rock também?
Lucas pensou por um momento, pressionando seu combo no jogo.
— O quarto dela é cheio de pôster do Evanescence.
Pedro, então, pegou uma das fichas sujas de suor e poeira e se afastou em direção à jukebox antiga da loja, sem dizer uma palavra. Ficou lá por um tempo, as mãos suando enquanto mexia nas opções, enquanto Marcos e Lucas observavam, sem saber exatamente o que ele estava fazendo, mas suspeitando.
Apertou o botão. Ao som das primeiras notas dramáticas de Bring Me to Life, do Evanescence, os amigos soltaram uma risada, reconhecendo a ousadia. O tempo fluiu entre risadas e a competição amigável, até que uma mão desconhecida, fina e com unhas pintadas de preto, colocou mais fichas na máquina.
— Cortesia do meu avô — disse Lorena, com um sorriso enigmático no rosto, seus olhos fixos em Pedro, que sentiu o rosto queimar.
— Que tal um campeonato, molecada? — Seu Zé apareceu de trás do balcão com seu jeito brincalhão, esfregando as mãos em um pano. — Quem vencer leva um lanche com refri por conta da casa!
Os meninos se animaram. Era simples, mas mágico, como tudo naquele canto perdido do bairro. Enquanto jogavam e se revezavam, Pedro e Lorena acabaram eliminados nas primeiras rodadas, restando lado a lado, presos em um silêncio denso e carregado, até que ela o quebrou, sua voz um tom mais baixo, quase um sussurro:
— É você que anda me procurando?
Pedro hesitou. Em nenhum momento ele imaginou que ela poderia saber, ou notar, que ele ficava indo lá atrás dela. Mas é claro que ela saberia. Alguém como ela perceberia tudo. Decidiu que a verdade era a melhor moeda.
— É que eu lembrei de você… — ele começou, os olhos fixos nas costas de Lucas, que jogava. — De quando brincávamos juntos. Eu me mudei há pouco e… bem, ainda não conheço muita gente. E aí me lembrei.
Ela encarou a tela da máquina, ponderando, seu olhar afiado contra a luz do flíper.
— Ah… Eu lembro. Mas não brinco mais de pique-pega, se é isso o que você quer.
Pedro riu, um pouco nervoso com a frieza dela, mas rapidamente explicou:
— Não, claro que não! É que… Eu soube que você gosta de rock. Eu também gosto. Pra caramba. E eu pensei, já que estou por aqui…
Ela o encarou por alguns segundos, desconfiada, e perguntou, cortando-o:
— Você só colocou Evanescence só porque sabe que eu…
Pedro se apressou a interromper, suas palavras saindo em um turbilhão:
— Não, não foi por isso! Eu também gosto! Sério! Tenho um monte de música no meu computador e, tipo, eu baixo tudo de MP3 e gravo CDs. Até faço as capinhas. É legal. Escuto no rádio do carro do meu tio com ele.
A expressão de Lorena se suavizou um grau, a desconfiança dando lugar a um interesse cauteloso. Ela parecia mais receptiva, o braço cruzado relaxou um pouco.
— Sério? — perguntou ela, ainda com um toque de desafio, mas agora misturado com curiosidade. — Então… Você consegue fazer isso para mim? Gravar umas músicas? Eu tenho umas que eu adoro, mas não sei como fazer isso sozinha.
E foi assim que a conversa deles começou a fluir, timidamente, com Pedro e Lorena se reconectando não através das memórias de infância, mas através dos fios frágeis de uma paixão compartilhada. O que antes parecia um encontro forçado, logo virou uma troca genuína de interesses, um arquivo .zip de músicas e significados, e o início de uma amizade que sentia ser a única coisa real naquele lugar de sombras e segredos.
A chuva começou de repente, sem aviso, transformando a poeira da Rua dos Perpétuos em pequenas crateras de lama. Em minutos, um dilúvio torrencial isolava o mundo do lado de fora das janelas. Foi o pai de Lucas quem resolveu a situação: com a estrada já intransitável para as bicicletas, ligou para os pais de Pedro e de Marcos.
— Fiquem tranquilos, eles tão bem aqui. A Dona Marta já tá fazendo um macarrão pra galera. É fim de semana, amanhã ninguém precisa levantar cedo. Podem ficar à vontade.
Dentro da casa de Seu Lúcio, o clima era quente e abafado pelo vapor da panela na cozinha. Sem videogame ou computador, – um dos grandes motivos pelos quais Lucas reclamava dos fins de semana na casa do pai – o grupo se virava com o que tinha. Jogaram partidas de Uno com um baralho velho e amassado, riram de histórias embaraçosas da escola e, quando a energia caiu por uns dez minutos, fizeram sombras de animais com as mãos na luz de uma vela, as silhuetas dançando nas paredes desconchavadas.
Seu Lúcio, observando da mesa da sala enquanto consertava uma ferramenta, não conseguia disfarçar uma ponta de emoção. Ele não via o filho tão solto e feliz há anos. Lucas, que normalmente ficava fechado no quarto ou resmungando sobre o tédio, ria alto e genuinamente com os amigos, mesmo sem nenhuma tela para entretê-lo. Era uma cena simples, mas que aquecia o coração do homem.
Depois da janta, com a chuva ainda tamborilando no telhado de zinco, eles se acomodaram no chão da sala, sobre cobertores e travesseiros velhos. Foi nesse clima de intimidade forçada pela tempestade que Lorena, sempre a agente do caos, trouxe à tona o assunto.
— Vocês já ouviram falar da estação de trem abandonada?
Os rapazes se sentiram mais assustados do que a menina. Marcos, encostado no sofá, puxou o cobertor até o queixo num exagero cômico.
— Já ouvi, mas dizem que é perigosa. Depois do acidente… — Marcos parou, incerto se deveria continuar.
Lorena sorriu, satisfeita em ver os outros tão atentos.
— Dizem que o trem ainda passa de madrugada, mesmo com a estação deserta.
— Passa mesmo — respondeu Pedro, a voz saindo mais firme do que ele esperava.
Os olhos de Lorena brilharam, fixos nele como faróis. Ela se inclinou levemente para frente, apoiando o queixo na mão, o cotovelo fincado no joelho.
— Você já viu? — perguntou, quase num sussurro, mas com uma intensidade que fez o rosto de Pedro esquentar instantaneamente.
Ele olhou rapidamente para os outros, tentando medir a reação. Os olhares voltaram-se todos para ele.
— E-eu… já… vi, sim. — A voz dele falhou por um instante, mas ele continuou, sentindo o peso da expectativa de Lorena. — Era tarde. Eu… ouvi o apito primeiro, um som baixo e abafado, depois vi as luzes na linha do trem… luzes fracas, amareladas.
— E…? — Lorena inclinou a cabeça, o olhar dela o prendendo no lugar como uma armadilha.
Pedro hesitou, revivendo a memória. A figura sobre o vagão, a escuridão das janelas.
— Parecia vazio, mas não. Não sei explicar. Tinha… uma presença.
Ela ergueu as sobrancelhas, um sorriso intrigado nos lábios, mas logo desviou o olhar dele para a janela encharcada. Pedro sentiu o momento escapar como areia entre os dedos. Ele tinha a atenção dela, mas não soube o que fazer com ela.
As histórias então fluíram, alimentadas pelo ambiente. Luzes estranhas, gente desaparecida, rumores sobre o sobrenatural. Marcos entrou no clima, fazendo uma pausa dramática após cada frase.
— Já ouvi falar de luzes estranhas, gente que some e aparece em lugares diferentes… — disse ele, observando as reações dos amigos. — Tem até quem diga que o Chupa-cu anda por lá, sugando a energia de quem se aproxima, e que o Homem do Saco aparece para levar quem se perde no caminho. Sem contar os rumores sobre o Sete Além…
Lucas riu, um som seco e curto, mas com um tom de desconforto inconfundível. Ele puxou os joelhos contra o peito.
— Ah, essas histórias… Meu pai contava pra assustar a gente quando eu era pequeno. Acho que era pra gente não fuçar por ali.
Pedro, que nunca havia ido tão longe, sabia que a linha do trem marcava o fim da Rua dos Perpétuos e o início do desconhecido. Era a fronteira.
— Então, vocês vão comigo ou não? — Lorena desafiou, levantando uma sobrancelha, a provocação estampada no rosto. — Porque se vocês não forem, eu vou sozinha de qualquer jeito.
Marcos e Lucas olharam um para o outro, hesitantes. Pedro, mesmo sem saber o que esperar, sentiu uma mistura de excitação e apreensão, um frio na barriga que não era totalmente desagradável.
— Não podemos sair à noite — Lucas contra-argumentou, pragmático. — Você sabe que nossos pais não iam deixar. A minha mãe, se souber, vai pirar.
Lorena soltou uma risada rápida, zombando:
— Ah, é claro. Mas eu quero ir durante o dia, até porque, o que eu vou ver se lá estiver um breu total? Nada. Não faz sentido, né? Vamos de manhã, assim que a chuva der uma trégua.
Com isso, olhando para a determinação nos olhos de Lorena e para a curiosidade tímida no rosto de Pedro, os três finalmente concordaram, com um resmungo coletivo.
Lorena completou, como se a decisão fosse um alívio tão esperado:
— Depois que a chuva passar, de manhã, nós vamos.
E, lá fora, a chuva continuava a cair, lavando o palco para a aventura que se aproximava.
Na manhã seguinte, o sol surgiu como um milagre duvidoso, trazendo um calor breve e úmido que grudava as roupas na pele. Pedro encontrou o pai esperando no portão.
— Vamos dar uma volta no bairro — disse, com um sorriso que era uma obra-prima de disfarce.
— Sem problemas — respondeu o pai. — Só não se afastem muito.
Os pais confiavam; os jovens sabiam que não deviam.
O grupo seguiu até onde o asfalto acabava. Lá estavam os trilhos, velhos e enferrujados.
— Aposto que não conseguem chegar até o fim da linha sem cair — desafiou Marcos, pulando sobre um dos trilhos de aço com um ar provocador.
— Que fim? — perguntou Lucas. — O fim do mundo?
— O fim da linha, tonto!
— Tá achando que é o que, o mestre dos trilhos? — Lorena cutucou, rolando os olhos, mas já se posicionando no trilho paralelo. — Vamos ver quem chega por último. O perdedor paga um Fofura pra todo mundo.
— Eu venço! Vocês não sabem, mas eu tenho um talento nato de concentrar chakra nos pés! — Pedro entrou na brincadeira, sentindo uma confiança súbita.
— Ah, valeu, Sakura! — Lucas retrucou, tentando se equilibrar. — Mas se liga no talento do Kakashi Sensei aqui.
— Ei, porque você é o Kakashi? — questionou Marcos, cambaleando.
Lucas usou uma das mãos para puxar uma mecha de cabelo dos lados.
— Eu já tenho até cabelo branco, olha só.
— Grisalho aos doze! — zombou Pedro.
— Se você é o Kakashi e o Pedro é a Sakura, então quem eu sou? — perguntou Marcos.
— O Naruto, não é óbvio? — respondeu Lucas.
Na mesma hora, Marcos escorregou, caiu no cascalho entre os trilhos e subiu de novo rapidamente, sob as risadas do grupo.
— Ei, eu não sou a Sakura! — Pedro reclamou, corando. — Se alguém tem que ser a Sakura tem que ser a menina do grupo!
— Cala a boca, Sakura! — Lorena comentou, sem se virar. — Eu tô muito mais pro Sasuke.
— Exato! — Lucas finalizou, com um sorriso maldoso. — Lorena é o Sasuke e Pedro é a Sakura correndo atrás.
A piada caiu como uma bomba. Pedro engoliu em seco, sem saber onde esconder o rosto. A implicância podia ser sobre ele estar andando no trilho atrás dela, ou por ter ido atrás dela na loja, ou por algo mais… subentendido. Lorena olhou rapidamente para trás, por cima do ombro, o suficiente para captar sua reação, mas não o suficiente para perder o equilíbrio. Ninguém falou nada. O ar ficou carregado por um segundo antes de todos, por um acordo tácito, ignorarem o assunto.
No caminho, Os muros que ladeavam os trilhos eram uma galeria a céu aberto. Alguém tinha pichado SDV em letras góticas, FLA em caixa alta, um palhaço com chapéu de bobo, o símbolo do Sapo que todo mundo sabia o que significava mas ninguém falava. E, em algum lugar no meio daquilo, um coração rabiscado com M + J dentro, amor juvenil que a chuva já tinha quase apagado.
Marcos apontou para o palhaço pichado e, com a maior cara séria do mundo, declarou:
— Sabia que o Batman foi parar no hospício?
Pedro e Lucas olharam um para o outro.
— Por quê? — perguntou Lucas, já se preparando para o pior.
— Porque ele tava coringando.
Marcos soltou uma risada curta e rouca, típica de quem tinha decorado aquela piada do Hermes e Renato e esperava meses para usá-la.
Aos poucos, as brincadeiras foram morrendo. O mundo ao seu redor mudava. A paisagem urbana se esvaía completamente, dando lugar ao avanço silencioso e opressivo do Mato Sabino. O silêncio ali era diferente. Nem inseto fazia barulho. Era como se o mato estivesse… esperando.
Pedro tirou o celular do bolso, um Nokia 1110, tanque de guerra, a tela monocromática e a antena durinha. O bichinho era indestrutível, mas naquele lugar não adiantava nada. Zero barras. A Vivo não pegava ali, a Oi também não.
— Alguém tem sinal? — perguntou, já sabendo a resposta.
Lucas balançou a cabeça. Marcos nem se deu ao trabalho de olhar. Lorena apenas encarou os muros da fábrica, indiferente.
Estamos sozinhos aqui, Pedro disse pra si mesmo.
— Nossa, que fim de mundo — Lucas resmungou, olhando para a mata fechada. — Bem que minha mãe diz que não tem absolutamente nada aqui.
— Daria qualquer coisa por um cinema ou um shopping que não fosse aquele da cidade, que parece uma caixa de sapato — disse Lorena.
A declaração surpreendeu um pouco os outros. Ela não era o tipo de garota de shopping.
— É… Eu também achava — Pedro falou, pensativo. — Mas sei lá. Comecei a pensar que talvez… ter nada talvez seja melhor do que ter um monte de coisa que não presta. Vocês não acham?
Foi então que Marcos, que havia ficado quieto por um bom tempo, absorvendo a paisagem, falou sem olhar para ninguém, sua voz um tom mais baixo que o normal.
— Sim. Pelo menos aqui é silencioso. — Ele fez uma pausa, ouvindo o cricrilar dos grilos. — Escutem isso. Só os bichos e a gente. É mil vezes melhor que o barulho ensurdecedor das brigas do meu pai em casa. Parece que as paredes vão cair.
Um silêncio pesado caiu sobre o grupo. Lucas, cujos pais eram separados, engoliu em seco e desviou o olhar. Pedro e Lorena se entreolharam. Naquele breve contato, uma conversa inteira e silenciosa aconteceu: um misto de pena, incompreensão e um alívio agradecido por não carregarem aquele mesmo fardo.
— Tá sentindo isso? — Lucas sussurrou.
— O quê? — perguntou Marcos.
— Parece que… tem mais alguém aqui.
A sensação foi quebrada por uma visão que se impôs à frente, quando contornaram uma curva suave nos trilhos.
Lá estavam eles. Os muros da fábrica abandonada, altos e severos como os muros de uma fortaleza amaldiçoada. A ferrugem escorria como sangue seco pela alvenaria. Um frio que nada tinha a ver com o clima percorreu suas espinhas.
Os portões de ferro, tortos e corroídos, rangiam com o vento, um som agudo e doloroso. Cada passo que davam em direção àquele lugar era como uma invasão, um pecado contra a quietude daquilo que preferia ser esquecido.
Eles pararam diante do portão, o grupo unido, o coração batendo forte no peito. A brincadeira nos trilhos tinha acontecido numa outra vida. Agora, só restava o silêncio pesado da fábrica e o eco dos segredos que ela guardava.
A fábrica de tecidos, outrora o orgulho de Pássaro Branco, estava em ruínas. O acidente do trem destruíra boa parte da estrutura, e o tempo fizera o resto. Havia buracos por toda parte: no telhado, nas paredes, e principalmente no muro dos fundos, onde um rombo grande o suficiente para passar um caminhão servia de entrada principal para quem quer que estivesse usando o lugar agora.
Dentro, o ar era pesado e doentio. Uma poeira grossa cobria as máquinas de tear abandonadas, mas no chão, trilhas recentes marcavam o caminho entre pilhas de caixas de madeira. Pedro notou algo estranho preso nas vigas de ferro acima: grossas correntes enferrujadas, com ganchos grandes e sinistros na ponta, balançando levemente. Eram antigos, da época da fábrica, mas a ferrugem em alguns estava manchada de algo mais escuro e recente.
— Parece coisa de açougue — sussurrou Lucas, pálido.
Eles seguiram em silêncio até a antiga plataforma de carga, onde os trilhos terminavam abruptamente contra um muro de concreto. Foi quando Pedro apontou para as marcas no chão: pegadas frescas de botas, muitas delas, indo e vindo de um galpão anexo.
No chão, sob as correntes, algo brilhava. Era uma unha. Inteira. Arrancada pela raiz.
— Alguém ainda usa esse lugar…
Seguindo as pegadas, encontraram o galpão cheio de caixas empilhadas até o teto. Várias estavam abertas, revelando sacos plásticos transparentes cheios de um pó branco-amarelado. O cheiro era estranhamente adocicado e químico, com um fundo acre que ardia no fundo da garganta.
— O que é isso? — perguntou Marcos, franzindo o nariz e recuando instintivamente.
Antes que pudessem especular, vozes masculinas ecoaram do corredor principal.
— …carga pronta para o embarque das 2h — dizia uma voz. — O trem para no ponto usual.
— Certo, só não repitam o erro do último mês… — outra voz respondeu.
As crianças congelaram. Não era um fantasma — era algo muito pior.
— Ei! O que vocês estão fazendo aqui? — rugiu um homem alto e magro, surgindo de uma porta lateral.
— Já estávamos de saída! — Marcos respondeu em tom irônico, mas sua voz trêmula traía o medo.
— Pega eles. Faz igual ao último — ordenou a voz do homem mais velho.
— São só crianças travessas — disse um homem mais velho, aparecendo atrás do primeiro.
— É, mas eles nos viram! — o homem magro insistiu. — E agora, Nelson, o que a gente faz?
O chefe, o homem mais velho — Nelson — explodiu:
— Idiota! Não me chama pelo nome! Agora sim vamos ter que matar eles!
— Nós não vimos nada! Nós nem sabemos o que tem aqui. Eu juro! — se apressou Lucas a responder, suas mãos tremendo.
— Temos que sair daqui! — sussurrou Pedro, puxando Lorena pelo braço.
Os homens entreolharam-se, e então Nelson, com uma frieza que gelou o sangue de todos, decretou:
— Não podemos deixar que saiam daqui. Façam o que for necessário.
O que se seguiu foi um pesadelo. Os homens avançaram, e as crianças correram como se o próprio inferno estivesse atrás deles, porque estava.
Eles correram pelo labirinto de máquinas, desviando de cabos soltos e pilhas de destroços. De repente, o som seco de um tiro cortou o ar, fazendo todos se abaixarem instintivamente. A bala zuniu perigosamente perto, ricocheteando no metal.
— Parem de atirar, seus idiotas! A gente precisa achá-los! — gritou Nelson.
Pedro tropeçou em um cabo, mas Lucas o puxou com força brutal.
— Corre, porra! Corre, caralho!!!
Encontraram uma saída lateral e se jogaram para o lado de fora, direto para a beira do Mato Sabino.
— Pelo meio do matagal? — Marcos hesitou, os olhos arregalados de terror.
— Ou isso ou eles nos pegam! — gritou Lorena, já mergulhando na escuridão verde.
A floresta os envolveu como uma boca faminta. Galhos arranhavam seus braços e rostos enquanto corriam cegamente. Os homens os seguiram, mas mais devagar, hesitantes em entrar no matagal fechado.
— Ali! Eles entraram no mato! — ouviu-se a voz áspera de Nelson atrás deles.
Foi então que algo mudou. Um rugido gutural e profundo ecoou através da mata, um som que vinha da própria terra. Os perseguidores pararam abruptamente.
— O que foi isso?! — perguntou um deles, visivelmente assustado.
— Cuidado! Tem algo aqui! — gritou outro, sua voz tremendo.
O rugido veio de novo, mais perto. Então, um estalo seco. O grito de Nelson não foi de susto. Foi de dor que virou choro, que virou súplica, que foi interrompida por um som molhado e arrastado, como algo sendo puxado para dentro da terra. Depois, só o silêncio.
— MEU DEUS! MINHA MÃO… — era a voz de Nelson, mas distorcida por uma agonia inimaginável.
Outros gritos, mais tiros disparados ao acaso, e então o som de homens correndo em pânico para longe do pântano, deixando para trás o uivo de dor e o choro de desespero de seu líder.
As crianças não olharam para trás. Correram até que os trilhos abandonados apareceram diante deles como um sinal de salvação.
— Por um triz, gente, por um triz — desabafou Marcos ofegante. — Foi quase um atropelamento de carroça!
Quando finalmente chegaram à Rua dos Perpétuos, os pais os esperavam, rostos pálidos de preocupação. Os adultos haviam ouvido os tiros e saíram desesperados à procura dos filhos.
Enquanto recebiam broncas e abraços apertados, Pedro olhou para o Mato Sabino ao longe.
— Pedro, pelo amor de Deus, a gente combinou de não morrer, não é?! — gritava o pai sem que o filho escutasse.
O que quer que tivesse atacado Nelson, ele sabia que não era algo que gostaria de encontrar novamente.
Por semanas, as crianças não deram as caras na rua. O castigo, combinado com o medo visceral de que outros homens pudessem estar por perto, as manteve longe de qualquer aventura. Depois daquele dia, quase ninguém no bairro ficava na rua depois das nove. Viaturas começaram a aparecer com frequência, mas nunca ficavam por muito tempo.
Naquelas semanas, ninguém mais viu o trem. Já Pedro evitava olhar para os trilhos à noite. Não só por medo daqueles homens, mas porque sabia que
tinha visto outra coisa.
Quase um mês depois, a notícia se espalhou: a polícia cercara a fábrica abandonada depois de uma denúncia anônima. Os comparsas de Nelson, presos em uma batida em outra cidade, tinham cantado. A quadrilha foi desmantelada. Nos depoimentos, os bandidos contaram uma história que ninguém na delegacia levou a sério, mas que correu como rastilho de pólvora por Pássaro Branco: disseram que Nelson fora atacado por uma fera do pântano que lhe arrancara a mão direita. Seu corpo nunca foi encontrado, apenas seu sangue seco no mato. Dado como desaparecido e presumidamente morto, o caso foi arquivado.
— Eu sempre falei que aquele lugar era amaldiçoado! — exclamava a mãe de Marcos com os vizinhos na calçada. — Mas ninguém me ouve!
Seu Geraldo, passando com a sacola e pão, deu sua opinião:
— Disseram que a polícia achou umas paradas lá… Isso aí não era fantasma não, era gente sem-vergonha se aproveitando. O único fantasma que existe é o do bolso do trabalhador no fim do mês!
Com a notícia da prisão dos bandidos e da morte de Nelson, um peso saiu dos ombros do bairro. A prefeitura, pressionada, finalmente se moveu. Fecharam o local e anunciaram que o terreno seria vendido para uma empresa que pretendia construir um shopping, ou pelo menos era o boato que corria pela Rua dos Perpétuos.
Pedro finalmente se sentiu seguro para ir à rua novamente. Foi num sábado de manhã na lojinha do Seu Zé, na esperança de encontrar seus amigos.
Na esquina, o Seu Jorge já tinha estacionado o carrinho de pipoca, com a buzina que parecia um pato gritando. Não tinha cliente naquela hora, mas o cheiro de milho salgado já se espalhava pela rua.
Seu Zé estava levantando a porta de ferro quando o viu.
— Ora, ora! Achei que você tinha me abandonado, moleque! — disse com um sorriso.
— Tava ocupado… — respondeu Pedro, encolhendo os ombros, mas não explicou mais nada.
Lucas chegou logo em seguida, ajudando Seu Zé a arrumar as prateleiras. Ele acenou com um sorriso tímido para Pedro. Pouco depois, Marcos apareceu. Marcos chegou, vestindo uma camisa do Flamengo tão velha que o número nas costas já tinha desbotado.
— Olha só quem tá aqui! — disse Marcos, dando um tapa amigável nas costas de Lucas. — Achei que sua mãe tinha te proibido de vir pra cá!
Seu Zé, saudoso da movimentação dos garotos, puxou três fichas do bolso e as entregou.
— Hoje é por conta da casa. Só não me sumam de novo, hein?
Os três riram e foram até a máquina de Arcade no canto da loja. O som familiar dos botões apertados no Street Fighter encheu o lugar. O próprio senhor ligou a jukebox e botou uma das músicas que eles gostavam de ouvir.
Enquanto jogava, Pedro sentia um peso no peito. As memórias daquele dia no Mato Sabino e na fábrica vinham à tona como flashes. O rugido na floresta, os tiros, o medo, e, principalmente, aquela sensação de que eles tinham escapado por muito pouco. Ele estava tão absorto em seus pensamentos que não percebeu Lorena até que ela esbarrou-o dando-lhe uma ombrada.
— Ei, seu nerd, no mundo da lua de novo? — provocou Lorena, com um sorriso.
Pedro corou, sem saber o que responder. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, ela continuou:
— Pensa pelo lado bom: se a gente não tivesse ido lá, a polícia não teria prendido aqueles bandidos.
Por um momento, todos sentiram um pouco de raiva por ela tê-los convencido a ir até lá, mas o alívio tomou conta do grupo, e então começaram a rir. Lorena, sempre com seu jeito direto, tinha o dom de quebrar o clima pesado.
Pedro, no entanto, sentiu seu rosto queimar quando pensou no jeito que Lorena encostou nele para despertá-lo e que só disse aquelas palavras porque viu a preocupação em seu rosto. Ele balançou a cabeça, afastando esse pensamento.
Eles não falaram que sentiram saudades uns dos outros. Não precisavam. O silêncio confortável entre eles dizia o suficiente. Ficaram ali, jogando fliperama, ouvindo rock e rindo.
O trem assustador da madrugada nunca mais passou. Embora assim o Mato parecesse cada vez mais perto, Pedro finalmente conseguiu ter descanso a noite.
P o s f á c i o
Costurando as Sombras de Pássaro Branco
Os Contos do Mato Sabino nasceram em antologias temáticas, cada uma uma peça solitária de um quebra-cabeça maior. A oportunidade de reuni-las em um volume único, no entanto, foi como devolver essas almas errantes à sua casa verdadeira: a cronologia.
O Trem da Madrugada (originalmente em Contos Sobre Trilhos do Ninho de Escritores): Esta foi a semente. No volume único, pude dar nomes e rostos à família de Pedro, respirar vida na Rua dos Perpétuos além do mistério, mostrando o calor humano que torna o horror subsequente ainda mais pungente. A semente do vilão, plantada aqui, só floresceria mais tarde.
A p ê n d i c e
As Raízes e os Galhos Sombrios de Pássaro Branco
Um olhar sobre as inspirações que fertilizaram o solo onde o Mato Sabino cresceu.
Pássaro Branco e o Peso do Lugar
Pássaro Branco não é uma invenção pura, mas um espectro. Ele é inspirado em um bairro real onde passei minha adolescência, um daqueles lugares onde o asfalto encontra o mato e os segredos são enterrados no quintal. A sensação de isolamento, a vida comunitária intensa e as coisas ruins verdadeiras que aconteciam nas bordas da percepção foram a semente. A criatividade infantil de revestir essas realidades difíceis com uma camada de lenda urbana se tornou a base de todo o universo. O sobrenatural neste livro é, em muitos aspectos, a forma como uma criança processa o mal adulto – transformando-o em fantasmas, monstros e assombrações que, de alguma forma, são mais fáceis de compreender.
O Mato Sabino: A Fronteira Viva
Assim como o bairro, o Mato Sabino também existiu. Um terreno vasto e intocado no fim da rua, uma presença constante e um tanto ameaçadora. Ele não tinha esse nome, mas na minha mente, ele sempre foi uma entidade. No livro, ele se tornou o coração pulsante de tudo: o repositório da memória, o juiz das ações e a fonte de todo o mistério. É a fronteira física e espiritual onde o passado e o presente, o real e o lendário, se fundem.
Os Moradores: Entre a Memória e a Ficção
Pedro e sua Família: São os meus pés na estrada. Pedro carrega minhas próprias angústias de adaptação e a descoberta de um mundo novo e assustador. Sua família é um eco da minha, com as devidas e necessárias distorções ficcionais que toda boa história exige.
Lucas e João Marcos: São tributos aos meus melhores amigos daquela época. Capturei seus espíritos, seus maneirismos, a dinâmica de nossa amizade, mas lhes dei histórias familiares e conflitos próprios, permitindo que se tornassem pessoas únicas neste universo.
Lorena: Diferente dos outros, Lorena brotou inteira da imaginação. Ela era a peça que faltava: o agente do caos, o espírito contestador e a força emocional que o grupo precisava. Ela é a prova de que mesmo em um solo fértil de memórias, as flores mais vibrantes podem ser totalmente inventadas.
As Lendas: Costurando o Folclore à Trama
O Trem-Fantasma: As lendas de trens-fantasmas sempre me fascinaram pela sua melancolia e sentido de passagem. Aqui, quis subvertê-las. O trem não é um fantasma, mas a desculpa para um. Sua função real – como veículo para o tráfico na fábrica abandonada – é a raiz podre que justifica o medo e os segredos, mostrando que a verdade por trás de um mito pode ser mais suja e perigosa que o próprio mito.

