A abertura da segunda temporada de Attack on Titan é uma das sequências mais comentadas — e mais mal compreendidas — de toda a história dos animes recentes. Quem assistiu na época provavelmente lembra da sensação: do nada, o Titã Bestial surge caminhando lado a lado com criaturas que parecem dinossauros, mamutes e outros animais gigantes, como se estivéssemos vendo um documentário da pré-história dirigido pelo apocalipse. E a pergunta ficou no ar por anos: que diabos era aquilo? Aqueles bichos existiram? Foram antigos portadores do Titã Bestial? O anime esqueceu de explicar? Ou era só piração estética?
Essa dúvida voltou com força depois que publiquei um vídeo de humor brincando com a minha própria reação ao ver aquela abertura pela primeira vez — completamente perdido, tentando entender o que estava acontecendo. A piada funcionou porque muita gente passou exatamente por isso. Vieram teorias, interpretações, convicções absolutas e também aquele clássico é só bonito, relaxa.
Confira aqui o vídeo:
Mas, quando a gente junta o que a obra mostra de fato com a maneira como aberturas de anime costumam funcionar, a resposta fica bem mais clara — e, na minha opinião, mais interessante do que qualquer explicação literal.
O primeiro ponto que precisa estar na mesa é simples: aberturas não são compromissos canônicos. Elas são peças artísticas que trabalham clima, tema, emoção e antecipação. Muitas vezes usam metáforas visuais poderosas que não correspondem a acontecimentos reais da narrativa. Attack on Titan sempre fez isso, inclusive em outras temporadas.
Aquela marcha de animais colossais ao lado do Bestial entra exatamente nesse campo. A imagem sugere algo ancestral, primordial, quase mitológico. Ela evoca a ideia de que o poder dos Titãs não é apenas uma arma militar, mas uma força da natureza, antiga, brutal, inevitável. Quando lembramos mais tarde da origem de Ymir e da entidade orgânica que concede os poderes — aquela vida primitiva que parece existir desde tempos imemoriais — a metáfora fica ainda mais redonda.
Os bichos não estão ali para dizer essas criaturas viraram Titãs no passado. Eles estão ali para comunicar que a violência titânica faz parte de um ciclo muito mais antigo do que a humanidade entende. É o passado profundo marchando.
Também dá para ler essa sequência como um prenúncio do terror coletivo que a série gradualmente constrói, algo que conversa com a ideia do Estrondo: uma força imparável avançando em conjunto, apagando tudo pela frente. Não é o evento em si, mas a sensação de fatalidade que acompanha a obra.
E existe um detalhe fundamental que ajuda a desmontar as interpretações literais: quando finalmente vemos diferentes Titãs Bestiais na história, nenhum deles é um animal gigante puro. Todos são humanoides, ainda que carreguem características específicas — macaco, carneiro, etc.
Em outras palavras, ninguém jamais convocaria uma baleia ou um tiranossauro para uma guerra. A própria narrativa estabelece esse limite. Por isso, imaginar que a abertura estaria mostrando portadores reais entra em conflito direto com o que o anime e o mangá apresentam depois. Funciona muito melhor entendê-la como símbolo.
A própria música, Shinzo Wo Sasageyo do grupo Linked Horizon, reforça essa leitura. A letra fala de dedicar o coração, de enfrentar o passado, de transformar desespero em ação. Quando vemos homens e criaturas marchando juntos, com os corações brilhando, a imagem conecta o sacrifício humano a algo maior, quase cósmico. É como se dissesse: a luta pela sobrevivência é tão antiga quanto a própria vida.
E talvez a razão de essa cena gerar tanta discussão até hoje seja justamente porque Attack on Titan treina o público a procurar pistas, segredos, verdades escondidas em cada frame. A gente foi condicionado a desconfiar de tudo. Então, quando surge uma imagem grandiosa dessas, é natural presumir que há um mistério objetivo esperando solução. Só que, dessa vez, o mistério é poético.
Até onde existem registros de bastidores e entrevistas, nunca houve uma declaração oficial transformando aqueles animais em personagens históricos ou antigos herdeiros do poder titânico. Eles permanecem como o que sempre pareceram ser: um recurso visual para amplificar o impacto temático da abertura. E, sinceramente, isso não diminui a cena. Pelo contrário. Dá a ela uma dimensão quase mítica, que combina perfeitamente com o rumo que a história tomaria depois.
No fim das contas, a resposta é direta: os animais gigantes não são figuras canônicas da trama. Eles representam a ancestralidade, a brutalidade, o caos inevitável e a conexão entre a humanidade e forças que a ultrapassam. São atmosfera, não registro histórico. Mas eu entendo totalmente quem, ao ver aquilo pela primeira vez, pensou: meu Deus, o que está acontecendo? Porque eu também pensei. E talvez seja exatamente por isso que a abertura continua tão memorável.
Quer um resumo em vídeo? Pois tome:


