{"id":27494,"date":"2026-10-21T14:00:24","date_gmt":"2026-10-21T17:00:24","guid":{"rendered":"https:\/\/terranerdica.com.br\/?p=27494"},"modified":"2026-10-21T15:38:20","modified_gmt":"2026-10-21T18:38:20","slug":"27494","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/terranerdica.com.br\/index.php\/2026\/10\/21\/27494\/","title":{"rendered":"Cara-de-Barro | Despretensioso body horror do Universo DC surpreende positivamente!"},"content":{"rendered":"<p data-path-to-node=\"4\">Eu fui sem pretens\u00e3o alguma, nem mesmo se quer tinha visto o material promocional, para assistir ao novo filme da DC, <em><b data-path-to-node=\"4\" data-index-in-node=\"81\">Cara-de-Barro,<\/b><\/em> e admito: fui surpreendido positivamente.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"4\"><span class=\"citation-9\">A trama acompanha <strong>Matt Hagen<\/strong> (<\/span><b data-path-to-node=\"2,0\" data-index-in-node=\"30\"><span class=\"citation-9\">Tom Rhys Harries<\/span><\/b><span class=\"citation-9 citation-end-9\">), um ator em ascens\u00e3o que, ap\u00f3s ter o rosto brutalmente desfigurado por mafiosos locais, aceita se submeter a um tratamento experimental da <strong>Dra.<\/strong><\/span> <span class=\"citation-8\"><strong>Caitlyn Corr<\/strong> (<\/span><b data-path-to-node=\"2,0\" data-index-in-node=\"206\"><span class=\"citation-8\">Naomi Ackie<\/span><\/b><span class=\"citation-8 citation-end-8\">).<\/span> <span class=\"citation-7 citation-end-7\">O procedimento, por\u00e9m, desencadeia uma assustadora e dolorosa metamorfose f\u00edsica e psicol\u00f3gica, transformando seu corpo, aos poucos, em uma massa de lama viva.<\/span> <span class=\"citation-6\">Sob a dire\u00e7\u00e3o precisa de <\/span><b data-path-to-node=\"2,0\" data-index-in-node=\"392\"><span class=\"citation-6\">James Watkins<\/span><\/b><span class=\"citation-6\">, o longa ganha contornos de terror marcantes gra\u00e7as ao roteiro afiado de <\/span><b data-path-to-node=\"2,0\" data-index-in-node=\"479\"><span class=\"citation-6\">Mike Flanagan<\/span><\/b><span class=\"citation-6\">, nome que comentei recentemente no site como showrunner da nova s\u00e9rie de <\/span><i data-path-to-node=\"2,0\" data-index-in-node=\"577\"><span class=\"citation-6\">Carrie, A Estranha<\/span><\/i><span class=\"citation-6 citation-end-6\">, que constr\u00f3i a ru\u00edna moral do protagonista com o mesmo toque sombrio de suas melhores produ\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p data-path-to-node=\"4\">Trata-se de uma verdadeira obra autoral em formato <i data-path-to-node=\"4\" data-index-in-node=\"188\">one-shot<\/i>: uma narrativa essencialmente fechada e autocontida, que se recusa a atuar meramente como engrenagem para futuros projetos. Enquanto a maioria das adapta\u00e7\u00f5es de quadrinhos cede \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de criar pontes artificiais para um universo expandido, este longa brilha justamente ao focar em um drama pessoal e muito bem delineado. Inclusive, h\u00e1 uma piscadela genial para os leitores de HQs quando o filme fict\u00edcio do protagonista compete com uma produ\u00e7\u00e3o intitulada <i data-path-to-node=\"4\" data-index-in-node=\"663\">One Bad Day,<\/i>\u00a0refer\u00eancia direta \u00e0 c\u00e9lebre linha de miniss\u00e9ries da DC sobre os momentos definitivos de ru\u00edna de seus personagens. A premissa de um estopim tr\u00e1gico rege o tom da narrativa do in\u00edcio ao fim, assumindo uma abordagem ainda mais pura e isolada do que a vista em <i data-path-to-node=\"4\" data-index-in-node=\"937\">Coringa<\/i>.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"5\">No aspecto conceitual e est\u00e9tico, o filme se inspira na tradi\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica do <i data-path-to-node=\"5\" data-index-in-node=\"100\">body horror<\/i>, assim como o recente indicado ao Oscar <em>A Subst\u00e2ncia, <\/em>mas remetendo aos cl\u00e1ssicos melodramas de monstros e transforma\u00e7\u00f5es da era de ouro do g\u00eanero, lembrando produ\u00e7\u00f5es de baix\u00edssimo or\u00e7amento que furavam bolhas e acabavam virando obras <i data-path-to-node=\"5\" data-index-in-node=\"292\">cult<\/i>. A narrativa \u00e9 incrivelmente <em>p\u00e9 no ch\u00e3o<\/em> e focada na figura de um transmorfo se destruindo por dentro e por fora. Grande parte desse sucesso se deve ao trabalho impressionante da equipe de maquiagem e design de produ\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de uma interpreta\u00e7\u00e3o visceral do protagonista, que sustenta com profundidade a ang\u00fastia da perda de identidade. Surpreende tamb\u00e9m perceber que a escala t\u00e9cnica da produ\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o focada e artesanal que a transforma\u00e7\u00e3o corporal do longa poderia ter sido realizada praticamente com efeitos pr\u00e1ticos no s\u00e9culo XX, com exce\u00e7\u00e3o apenas da manifesta\u00e7\u00e3o monstruosa final.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"6\">A dire\u00e7\u00e3o demonstra um dom\u00ednio admir\u00e1vel de economia de meios e decupagem de cenas. A arquitetura espacial da narrativa \u00e9 constru\u00edda em uma estrutura minimalista baseada em apenas poucas loca\u00e7\u00f5es principais: o set de filmagem em Coast City (que o filme canoniza com maestria como a Hollywood do Universo DC), a boate dos mafiosos em Gotham, a casa do protagonista, a cl\u00ednica m\u00e9dica onde ocorre a tr\u00e1gica metamorfose e o departamento de pol\u00edcia (GCPD). Essa ambienta\u00e7\u00e3o contida fortalece a atmosfera sufocante e a sensa\u00e7\u00e3o de claustrofobia. Al\u00e9m disso, a Gotham retratada aqui exibe uma cenografia, tom e at\u00e9 cartografia visivelmente id\u00eanticos aos de <i data-path-to-node=\"6\" data-index-in-node=\"649\">The Batman<\/i> (n\u00e3o por acaso, j\u00e1 que Matt Reeves assina como produtor executivo), criando uma imers\u00e3o atmosf\u00e9rica impec\u00e1vel que flerta o tempo todo com um universo noir-punk urbano.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"7\">Entretanto, o \u00fanico rev\u00e9s real da obra reside na inevit\u00e1vel <em>maldi\u00e7\u00e3o do universo compartilhado.<\/em> Segurando os spoilers, mais para o final, percebe-se um certo uma certa estranheza quando o roteiro for\u00e7a uma conex\u00e3o um pouco apressada com o DCU principal de James Gunn. H\u00e1 tamb\u00e9m uma pequena incoer\u00eancia na escolha do nome e na transi\u00e7\u00e3o final do personagem para um visual extremamente id\u00eantico ao da anima\u00e7\u00e3o <i data-path-to-node=\"7\" data-index-in-node=\"379\">Creature Commandos<\/i>, gerando certa estranheza para quem acompanhava a trajet\u00f3ria daquele indiv\u00edduo em particular e esperava uma abordagem puramente aut\u00f4noma (ou um aceno mais claro ao cl\u00e1ssico Basil Karlo). Parecem decis\u00f5es impostas por restri\u00e7\u00f5es executivas ou pela obriga\u00e7\u00e3o de amarrar pontas em uma franquia maior, contrastando com o frescor do restante da proje\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"8\">Felizmente, essa interfer\u00eancia externa no cl\u00edmax n\u00e3o chega a comprometer a experi\u00eancia geral ou a estragar o peso dram\u00e1tico do filme. O resultado final \u00e9 um filma\u00e7o aut\u00eantico, muito bem dirigido e que se sustenta com louvor pela pr\u00f3pria for\u00e7a narrativa. Para quem pretende assistir, a melhor recomenda\u00e7\u00e3o \u00e9 ir sem a expectativa de ver um tradicional <em>filme de boneco<\/em> repleto de ganchos comerciais ou participa\u00e7\u00f5es especiais, mas sim um estudo de personagem tr\u00e1gico, grotesco e envolvente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu fui sem pretens\u00e3o alguma, nem mesmo se quer tinha visto o material promocional, para assistir ao novo filme da DC, Cara-de-Barro, e admito: fui surpreendido positivamente. 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