{"id":27386,"date":"2026-08-05T09:21:03","date_gmt":"2026-08-05T12:21:03","guid":{"rendered":"https:\/\/terranerdica.com.br\/?p=27386"},"modified":"2026-08-05T09:21:03","modified_gmt":"2026-08-05T12:21:03","slug":"os-contos-de-mato-sabino-1-o-trem-da-madrugada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/terranerdica.com.br\/index.php\/2026\/08\/05\/os-contos-de-mato-sabino-1-o-trem-da-madrugada\/","title":{"rendered":"Os Contos de Mato Sabino #1 | O Trem da Madrugada"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>&#8216;\u00d3i, \u00f3i o trem,<\/p>\n<p>vem surgindo de tr\u00e1s das montanhas azuis, olha o trem.<\/p>\n<p>\u00d3i, \u00f3i o trem,<\/p>\n<p>vem trazendo de longe as cinzas do velho \u00e9on.<\/p>\n<p>\u00d3i, j\u00e1 \u00e9 vem,<\/p>\n<p>fumegando, apitando, chamando os que sabem do trem.<\/p>\n<p>\u00d3i, \u00e9 o trem,<\/p>\n<p>n\u00e3o precisa passagem, nem mesmo bagagem no trem . . .&#8217;<\/p>\n<p>\u2014 Raul Seixas<\/p><\/blockquote>\n<p>A casa no fim da Rua dos Perp\u00e9tuos era engolida pelo tempo. Um f\u00f3ssil de madeira e telhas marselhesas cuspido de volta pelo p\u00e2ntano. Era mais velha do que todas as lembran\u00e7as que Pedro tinha dos ver\u00f5es passados com os av\u00f3s. Suas janelas empenadas eram como olhos m\u00edopes, e o port\u00e3o de ferro rangia um lamento agudo ao menor toque, um som que ele sentia nos pr\u00f3prios dentes. Agora, depois de doze anos vivendo num apartamento de dois quartos no Jardim Primavera, um condom\u00ednio-fortaleza com piscina verde-\u00e1gua e guarita, seus pais haviam decidido se mudar para P\u00e1ssaro Branco, distrito de Bar\u00e3o do Vale. Convencidos de que a mudan\u00e7a seria boa para todos: mais espa\u00e7o, ar puro e longe do barulho incessante do tr\u00e2nsito. Para ele, no entanto, aquilo parecia o fim do mundo.<\/p>\n<p>Se, no antigo bairro, a vida se esva\u00eda ap\u00f3s as 20h, as ruas se tornando desertas e os port\u00f5es eletr\u00f4nicos descendo com um ru\u00eddo met\u00e1lico de fim de expediente, em P\u00e1ssaro Branco o calor humano era uma entidade viva e noturna. Na primeira noite, ele espantara-se com o burburinho que vinha da rua: o som de garrafas de cerveja tilintando, o riso solto dos tios no quintal ao lado, o cheiro de churrasco misturado ao aroma \u00famido do mato. Era uma vibra\u00e7\u00e3o org\u00e2nica, um pulso que o apartamento no Jardim Primavera h\u00e1 muito havia perdido. Mas por baixo daquela aparente descontra\u00e7\u00e3o, Pedro captou uma nota falsa. Havia um h\u00e1bito estranho nos adultos: \u00e0s 22h em ponto, pareciam obedecer a um toque de recolher n\u00e3o dito, as vozes se baixavam, as luzes das varandas se apagavam e as portas se trancavam com um clique decisivo. A alegria parecia ensaiada, e o sil\u00eancio que a sucedia era pesado, expectante, como se todos estivessem esperando por algo.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o, por um segundo naquela primeira noite ali, Pedro achou que ouviu algo vindo do mato. N\u00e3o era vento. Era pesado demais pra ser o vento.<\/p>\n<p>Ao amanhecer, a Dona Mirtes, da casa ao lado, apareceu no port\u00e3o com um tabuleiro de brigadeiros.<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3i, queridos, sejam bem-vindos! T\u00e1 precisando de alguma coisa, \u00e9 s\u00f3 gritar! Aqui \u00e9 tranquilo, viu? S\u00f3 n\u00e3o chega perto dos trilhos depois das dez, que o vento fica meio estranho, d\u00e1 um frio na espinha&#8230; \u2014 disse, enquanto o marido, Seu Oscar, consertava um carro velho na cal\u00e7ada e concordava com a cabe\u00e7a. \u2014 Depois das dez ningu\u00e9m fica na rua, viu? \u2014 disse, ainda sorrindo.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que Pedro notara os antigos trilhos, velhos e enferrujados, cortando a paisagem, como uma cicatriz esquecida atr\u00e1s do quintal. Com ru\u00ednas do muro paralelo, como uma fronteira entre o vivo bairro e o ermo Mato Sabino. Havia marcas na terra, fundas demais para serem de pneus. Como se algo pesado tivesse sido arrastado dali para dentro do mato.<\/p>\n<p>Lembrou-se dos ver\u00f5es passados com o vov\u00f4 Pedro e a vov\u00f3 Isabel, sentados na cal\u00e7ada, assistindo os trens passarem enquanto tomava caf\u00e9 e comia p\u00e3o fresco. A av\u00f3 havia partido h\u00e1 alguns anos, e sua falta era um vazio silencioso na casa, mas a lembrava com um carinho pungente. Era ela quem contava as hist\u00f3rias mais legais e o defendia das broncas do av\u00f4. Naquela \u00e9poca, os vag\u00f5es eram parte do fundo musical da sua inf\u00e2ncia, o som constante que embalava os dias e noites. Agora, os trilhos morriam. Sufocados pelo avan\u00e7o implac\u00e1vel da vegeta\u00e7\u00e3o sombria do Mato Sabino, o p\u00e2ntano que o trilho separava do bairro.<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o passa mais trem por aqui? \u2014 perguntou ele na mesa do caf\u00e9 da manh\u00e3, onde todos estavam reunidos.<\/p>\n<p>O tio Zeca, que segurava uma fatia de p\u00e3o com manteiga, parou por um instante, seu olhar fugindo rapidamente antes de responder:<\/p>\n<p>\u2014 Esses trilhos est\u00e3o desativados h\u00e1 anos, Pedrinho. Desde o acidente na f\u00e1brica.<\/p>\n<p>Pedro esperou. Ningu\u00e9m completou.<\/p>\n<p>\u2014 Que acidente? \u2014 ele insistiu.<\/p>\n<p>A tia Tessa colocou a x\u00edcara do av\u00f4 na mesa com um cuidado ensaiado. Seus olhos n\u00e3o encontraram os dele.<\/p>\n<p>\u2014 Foi uma trag\u00e9dia \u2014 a tia Tessa, que colocava mais caf\u00e9 na x\u00edcara do av\u00f4, interveio, sua voz baixa e carregada. \u2014 O trem descarrilou e bateu na f\u00e1brica no fim da linha. A esta\u00e7\u00e3o, a f\u00e1brica&#8230; tudo foi destru\u00eddo.<\/p>\n<p>O av\u00f4 Pedro Zacarias largou o p\u00e3o com manteiga no prato e deu uma palmada na mesa, fazendo as x\u00edcaras tilintarem.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, morreu gente pra caramba! Trabalhadores, maquinistas, at\u00e9 uns coitados que estavam perto da esta\u00e7\u00e3o \u2014 ele balan\u00e7ou a cabe\u00e7a, mas o tom n\u00e3o era de pesar profundo, era de quem j\u00e1 tinha contado aquela hist\u00f3ria tantas vezes que o horror virou causo. \u2014 Foi um dia triste, sim. Dos piores que essa rua j\u00e1 viu. Mas fazer o qu\u00ea? A vida segue.<\/p>\n<p>E pegou de novo o p\u00e3o.<\/p>\n<p>O pai de Pedro, Jo\u00e3o Francisco, que at\u00e9 ent\u00e3o estava calado, apenas mexendo no a\u00e7\u00facar do caf\u00e9 com um ru\u00eddo irritante de colher na porcelana, complementou com um tom direto e final:<\/p>\n<p>\u2014 Depois disso, ningu\u00e9m quis reconstruir a esta\u00e7\u00e3o ou reativar os trilhos. \u2014 Ele n\u00e3o olhou pra ningu\u00e9m enquanto falava, s\u00f3 continuou mexendo o caf\u00e9. \u2014 Falaram que seria mais barato e mais seguro s\u00f3 abandonar tudo.<\/p>\n<p>\u2014 Eu trabalhava l\u00e1 \u2014 disse o tia Zeca, sem olhar pra ningu\u00e9m. \u2014 Na f\u00e1brica. Por muita sorte eu n\u00e3o estava nesse dia.<\/p>\n<p>Pedro co\u00e7ou a cabe\u00e7a, sentindo o arrepio de um segredo pairando sobre a mesa. Sua priminha, Mariana, e a sua irm\u00e3zinha, Isabelle riam no quintal, alheias ao peso da conversa.<\/p>\n<p>\u2014 E o que tem no lugar agora?<\/p>\n<p>O tio Zeca lan\u00e7ou outro olhar significativo para o av\u00f4, quase uma consulta silenciosa, antes de responder:<\/p>\n<p>\u2014 Matagal s\u00f3. O Mato Sabino tomou conta de tudo. E \u00e9 melhor deixar quieto.<\/p>\n<p>\u2014 Mas&#8230; ningu\u00e9m vai l\u00e1? \u00c9 s\u00f3 mato? \u2014 insistiu, a curiosidade superando o desconforto.<\/p>\n<p>A tia Tessa fechou a cara e respondeu com uma firmeza que n\u00e3o admitia discuss\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 perigoso, Pedro. N\u00e3o v\u00e1 l\u00e1. Ponto final.<\/p>\n<p>Hesitou, sentindo o gelo na voz dela.<\/p>\n<p>\u2014 Perigoso como? Amaldi\u00e7oado? \u2014 perguntou, sarc\u00e1stico, tentando quebrar a tens\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas percebeu que ningu\u00e9m riu. Ningu\u00e9m sequer esbo\u00e7ou um sorriso. O av\u00f4 Pedro, que at\u00e9 ent\u00e3o s\u00f3 ouvira, colocou a x\u00edcara de caf\u00e9 na mesa com um leve baque que soou como um trov\u00e3o naquela cozinha silenciosa.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei de maldi\u00e7\u00e3o, menino \u2014 disse o velho, sua voz um sussurro \u00e1spero. \u2014 Mas o que sei \u00e9 que coisas ruins aconteceram l\u00e1. Tem coisa que n\u00e3o foi embora com o acidente.<\/p>\n<p>O tio Zeca, tentando aliviar a tens\u00e3o com uma risada for\u00e7ada, disse:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9, Pedro. Melhor voc\u00ea ficar com seus joguinhos no computador do que dar sopa por aquelas bandas.<\/p>\n<p>N\u00e3o insistiu, mas aquele sil\u00eancio c\u00famplice, a troca de olhares r\u00e1pidos e cheios de significado, n\u00e3o saiu de sua mente. Era como se todos naquela mesa compartilhassem um segredo doente, um tumor que ningu\u00e9m queria examinar.<\/p>\n<p>O isolamento e o estranhamento levaram Pedro a se refugiar at\u00e9 altas horas no computador, j\u00e1 conectado \u00e0 banda larga naquela \u00e9poca. <em>Super Mario, Donkey Kong, Megaman X<\/em> ou o <em>Sonic<\/em> correndo pela tela, atrav\u00e9s de seus emuladores de consoles, eram um al\u00edvio para o vazio e para a sensa\u00e7\u00e3o inc\u00f4moda de que havia algo profundamente errado naquele para\u00edso familiar.<\/p>\n<p>Nas tardes de s\u00e1bado, ele e o tio Zeca trocavam m\u00fasicas, um ritual que criava uma ponte entre seus mundos. Faixas de MP3, de \u00e1lbuns rec\u00e9m-lan\u00e7ados que Pedro baixava em sites prec\u00e1rios, por cl\u00e1ssicos do rock que seu tio tinha em CDs antigos e arranhados. Iam de Linkin Park a The Cure enquanto lavavam o <em>monza<\/em> velho do tio. A rotina calma, um ver\u00e3o perfeito congelado no tempo.<\/p>\n<p>Mas, numa noite, tudo mudou.<\/p>\n<p>Naquela noite, enquanto tentava derrotar Sigma em <em>Megaman X<\/em>, uma luz p\u00e1lida e tr\u00eamula tremeluziu do lado de fora, projetando sombras dan\u00e7antes na parede de seu quarto. Espiou pela janela, o cora\u00e7\u00e3o dando um salto. L\u00e1 estavam eles: os trilhos abandonados, agora iluminados por uma luz fantasmag\u00f3rica. E algo que n\u00e3o devia estar ali se movia sobre eles. Um trem, negro e silencioso como um segredo que deveria permanecer enterrado, deslizava sem fazer um \u00fanico ru\u00eddo. Suas janelas eram escuras, vazias. E sobre os vag\u00f5es, uma figura se movia com uma estranha fluidez, mais um vulto do que um homem. Quando a figura virou o rosto em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sua janela, ele n\u00e3o viu fei\u00e7\u00f5es, apenas uma mancha indistinta na penumbra. Mas era o suficiente. Ele recuou da janela, o cora\u00e7\u00e3o disparado como um tambor de guerra, o suor frio escorrendo pelas suas costas. Seu mundo seguro havia rachado, e a realidade sombria de P\u00e1ssaro Branco respirava agora do outro lado do vidro.<\/p>\n<p>A manh\u00e3 seguinte trouxe consigo a luz crua do dia, dissipando um pouco o terror noturno, mas n\u00e3o a sua convic\u00e7\u00e3o. No caf\u00e9 da manh\u00e3, com a fam\u00edlia reunida, tentou alertar sobre o que vira:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o passa mais trem por aqui, Pedro \u2014 disse o tio Zeca, tentando desviar o assunto com um tom leve for\u00e7ado demais para ser verdadeiro.<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu vi! \u2014 insistiu, a voz mais firme do que se sentia por dentro. O cheiro do caf\u00e9 e do p\u00e3o fresco de repente ficou pesado, opressivo.<\/p>\n<p>Seu pai baixou o jornal e balan\u00e7ou a cabe\u00e7a com uma risada curta, nervosa.<\/p>\n<p>\u2014 Vai ver foi s\u00f3 sua imagina\u00e7\u00e3o, filho. Ou um sonho, quem sabe? Essa mudan\u00e7a toda, o ar diferente&#8230; afeta a gente.<\/p>\n<p>Franziu o cenho, sentindo uma fa\u00edsca de frustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o foi sonho! Eu estava acordado jogando!<\/p>\n<p>A tia Tessa, que passava manteiga no p\u00e3o de Mariana, lan\u00e7ou um olhar r\u00e1pido e carregado para o av\u00f4, que permanecia calado, seus dedos nodosos envoltos na x\u00edcara de caf\u00e9 como se buscassem calor de algo que n\u00e3o estava mais l\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Talvez tenha sido&#8230; sei l\u00e1, um trem fantasma \u2014 disse Tessa, a voz um pouco mais suave, quase condescendente.<\/p>\n<p>\u2014 Se bem que o Seu Paulo j\u00e1 falou desse trem-fantasma a\u00ed tamb\u00e9m \u2014 acrescentou o av\u00f4.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, pai! \u2014 contra-argumentou o tio Zeca, a risada agora alta e artificial. \u2014 O Seu Paulo \u00e9 um b\u00eabado maluco!<\/p>\n<p>Todos na mesa riram, um coro for\u00e7ado que n\u00e3o chegou aos olhos. Todos menos Pedro, que olhou de um rosto para o outro. Apesar das risadas nervosas e das desculpas improvisadas, algo na relut\u00e2ncia deles, na forma como seus olhares se encontravam e fugiam, entregava uma verdade inc\u00f4moda: eles sabiam mais do que diziam. Havia um segredo ali, um osso enterrado no quintal de P\u00e1ssaro Branco que ningu\u00e9m queria desenterrar.<\/p>\n<p>As noites seguintes foram de vig\u00edlia. Pedro jogava em seu computador, mas seus olhos estavam constantemente nos trilhos, na janela escura que era um portal para o desconhecido. A espera foi recompensada, ou amaldi\u00e7oada, quando a luz p\u00e1lida reapareceu. Desta vez, ele n\u00e3o hesitou. Correu pelo corredor escuro e sacudiu os pais.<\/p>\n<p>\u2014 Acorda! Pai, m\u00e3e, voc\u00eas precisam ver! Est\u00e1 passando de novo!<\/p>\n<p>\u2014 Pedro, t\u00e1 tarde! Vai dormir, pelo amor de Deus! \u2014 disse a m\u00e3e com a voz grossa de sono e exaspera\u00e7\u00e3o, virando de costas.<\/p>\n<p>No dia seguinte, a tens\u00e3o pairou sobre a casa como um odor ruim. Seu pai o encarou s\u00e9rio durante o almo\u00e7o e decretou:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea precisa sair de casa, Pedro. Ficar trancado nesse quarto n\u00e3o \u00e9 bom. V\u00ea se n\u00e3o tem ningu\u00e9m da sua idade brincando de pique-pega na rua&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pai, ningu\u00e9m da minha idade brinca de pique-pega mais \u2014 retrucou, sentindo-se infantilizado.<\/p>\n<p>\u2014 Essas coisas que voc\u00ea t\u00e1 imaginando \u00e9 porque voc\u00ea fica acordado at\u00e9 tarde vendo coisa na tela do computador. Vai andar de bicicleta, sei l\u00e1! Respira um ar que preste!<\/p>\n<p>Pedro n\u00e3o se convencia. Ele sabia, com uma certeza que ia al\u00e9m da raz\u00e3o, o que tinha visto. E, mais do que nunca, sentia que algo o chamava daqueles trilhos enferrujados, um segredo enterrado que sussurrava que apenas ele podia desenterrar.<\/p>\n<p>A relut\u00e2ncia em explorar aquele lugar estranho era grande, mas a ordem da m\u00e3e para comprar p\u00e3o era uma lei superior. Ele se viu, ent\u00e3o, caminhando pela Rua dos Perp\u00e9tuos sob a luz da tarde. O bairro durante a tarde era uma mistura de sil\u00eancio e nostalgia. Crian\u00e7as brincavam descal\u00e7as na terra batida, seus gritos ecoando estranhamente nas ruas vazias; os idosos eram vultos silenciosos sentados nas cal\u00e7adas, seus olhos seguindo-o com uma curiosidade que beirava a vigil\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Foi no mercadinho do Seu Z\u00e9, um reduto de poeira e hist\u00f3rias antigas, que ele a viu. Buscando algo no balc\u00e3o, ela parecia de outro mundo, uma figura cortada de uma revista e colada na realidade mon\u00f3tona de P\u00e1ssaro Branco: leve maquiagem escura emoldurando olhos vivos e inteligentes, cabelo loiro-platinado ensebado caindo em camadas irregulares, e uma camiseta do Ramones, pu\u00edda e perfeita. Pedro n\u00e3o conseguia desviar o olhar. Havia algo nela, uma aura de intensidade e mist\u00e9rio, que o prendia ali como uma mariposa hipnotizada pela chama. Ela olhou para ele por um breve instante, ou apenas imaginou, desejou. Um sorriso fugidio, uma mem\u00f3ria desperdi\u00e7ada. Ent\u00e3o, como um fantasma, ela se foi, deixando para tr\u00e1s apenas o cheiro de cigarro e uma sensa\u00e7\u00e3o de vazio.<\/p>\n<p>De volta \u00e0 casa, n\u00e3o parava de pensar nela. Era uma obsess\u00e3o silenciosa, mas inescap\u00e1vel, um ref\u00fagio dos pensamentos sobre o trem e o Mato Sabino. Ele aproveitou um momento em que o tio Zeca assistia TV para perguntar, tentando soar casual:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00eas sabem quem \u00e9 a menina loira que parece meio roqueira aqui na rua?<\/p>\n<p>O tio, sem tirar os olhos da tela, respondeu com desinteresse:<\/p>\n<p>\u2014 Deve ser a Lorena. A neta do Seu Z\u00e9 da lojinha. Voc\u00ea e ela eram amigos quando crian\u00e7as, lembra?<\/p>\n<p>A revela\u00e7\u00e3o o pegou desprevenido. Pedro escavou sua mem\u00f3ria e, aos poucos, como flashes de um filme antigo, as lembran\u00e7as vieram \u00e0 tona: brincadeiras de correr pelas ruas de terra, risos afogados pelo apito de trens reais, explora\u00e7\u00f5es audaciosas nos limites do quintal. Aquela vida pertencia a outra pessoa. A garota que ele viu agora, com sua aura de rock e desafio, n\u00e3o tinha nada a ver com a amiga de inf\u00e2ncia de vestido sujo de grama. Ainda assim, algo nele, uma nostalgia profunda ou talvez a solid\u00e3o, queria se reconectar, um desejo inexplic\u00e1vel de resgatar um fio do que foi perdido.<\/p>\n<p>Nos dias seguintes, se oferecia para ir comprar tudo o que precisasse na lojinha, um falso consumismo movido pela esperan\u00e7a de v\u00ea-la novamente. Certa tarde, com o cora\u00e7\u00e3o batendo forte, puxou conversa com o Seu Z\u00e9, um homem cujo rosto era um mapa de todas as hist\u00f3rias do bairro.<\/p>\n<p>\u2014 Lembra de mim, Seu Z\u00e9? Eu sou o neto do Seu Pedro. Eu brincava com a Lorena quando era pequeno.<\/p>\n<p>Seu Z\u00e9 sorriu, um sorriso nost\u00e1lgico que chegou aos seus olhos cansados.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, Pedrinho! Claro que lembro! Voc\u00ea e a Lola&#8230; voc\u00eas eram dois pardais no mesmo ninho. \u2014 Ele baixou a voz, como se compartilhasse um segredo. \u2014 Mas ela mudou muito, sabe? Cresceu. Agora, s\u00f3 est\u00e1 interessada em livros de mist\u00e9rio, nessas m\u00fasicas&#8230; tristes, dram\u00e1ticas, que voc\u00eas jovens gostam.<\/p>\n<p>As palavras de Seu Z\u00e9, especialmente aquela \u00faltima parte, deixaram-no inquieto. Mas em vez de afast\u00e1-lo, alimentou sua curiosidade. Ele come\u00e7ou a frequentar a m\u00e1quina de Arcade da loja com um objetivo mais claro, usando os jogos como isca. Foi assim que conheceu Jo\u00e3o Marcos, um garoto de olhos cansados e ombros um pouco curvados, que compartilhava seu gosto por videogames e por uma fuga silenciosa. Aos poucos, os dois se tornaram amigos, unidos pela solid\u00e3o compartilhada. Marcos tamb\u00e9m estava procurando algo: uma forma de escapar da rotina tumultuada de sua fam\u00edlia, das brigas que conseguia ouvir atrav\u00e9s das paredes finas de sua casa.<\/p>\n<p>Quando Pedro chegou em casa, o av\u00f4 estava sentado na varanda, uma cerveja na m\u00e3o, contando alguma hist\u00f3ria para o tio Zeca que fazia os dois rirem alto.<\/p>\n<p>\u2014 A\u00ed o Tonho caiu na vala, cheio de cacha\u00e7a, e ficou l\u00e1 cantando moda at\u00e9 amanhecer! \u2014 Seu Pedro deu uma gargalhada rouca. Viu o neto e abriu os bra\u00e7os. \u2014 Pedrinho! Vem c\u00e1, menino! Tava com saudade!<\/p>\n<p>Pedro se aproximou, meio sem jeito. O av\u00f4 o puxou pelo bra\u00e7o e o fez sentar ao lado.<\/p>\n<p>\u2014 T\u00e1 gostando do bairro? J\u00e1 arrumou uma namorada? \u2014 Ele piscou. \u2014 A Lorena \u00e9 bonita, hein? Fica esperto.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00f4! \u2014 Pedro corou.<\/p>\n<p>O av\u00f4 riu de novo, batendo no joelho.<\/p>\n<p>\u2014 Deixa o menino, pai \u2014 disse o tio Zeca, rindo tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 Deixar nada! Eu com doze anos j\u00e1 tinha namorada, j\u00e1 tinha levado uns cascudos do meu pai, j\u00e1 tinha feito cada coisa&#8230;<\/p>\n<p>Pedro n\u00e3o sabia onde enfiar o rosto, mas no fundo, gostou. Fazia tempo que n\u00e3o via o av\u00f4 t\u00e3o animado.<\/p>\n<p>Em uma manh\u00e3 de s\u00e1bado, enquanto chegavam para o fliperama, um outro garoto da idade deles j\u00e1 aguardava, com um ar de quem preferia estar em qualquer outro lugar. Marcos o cumprimentou:<\/p>\n<p>\u2014 Ei, Lucas!<\/p>\n<p>O jovem Lucas, da idade deles, vestindo um pijama do Batman e chinelos, acenou de volta com um movimento m\u00ednimo de cabe\u00e7a, sem entusiasmo.<\/p>\n<p>Pedro perguntou em voz baixa:<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9 esse?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o Lucas. Neto do Seu Z\u00e9 tamb\u00e9m. Mas ele n\u00e3o mora aqui, s\u00f3 vem aos fins de semana. Mora com a m\u00e3e em outro bairro.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o ele \u00e9 primo da Lorena?<\/p>\n<p>Lucas, claramente sem se importar com a pergunta ou com a presen\u00e7a deles, apenas olhou para a tela do fliperama. Ele fora obrigado pelo pai a tentar interagir, pois toda vez que ia para P\u00e1ssaro Branco, se trancava no quarto. Seu av\u00f4, Z\u00e9, achara uma boa ideia ele fazer amizade com os <em>novos garotos<\/em>. S\u00f3 de birra, Lucas nem se arrumara, foi para a loja com a roupa que acordara, um protesto silencioso.<\/p>\n<p>Enquanto jogava <em>Street Fighter<\/em> na m\u00e1quina isolada, Pedro, tentando descontrair e incluir o novato, come\u00e7ou a falar de algo que sabia ser um territ\u00f3rio comum com Marcos. Ele contou-lhe sobre o Orkut, esse novo site onde as pessoas se conectavam, um mundo virtual que parecia t\u00e3o distante daquele lugar.<\/p>\n<p>\u2014 Tem uma comunidade l\u00e1, a <em>Discografias<\/em>, que tem todas as m\u00fasicas do mundo! Eu baixo tudo e gravo em CDs para escutar no r\u00e1dio do Monza do meu tio.<\/p>\n<p>Enquanto ele falava, Lucas, que estava um pouco afastado, de repente se aproximou. Com uma express\u00e3o s\u00e9ria que contrastava com o pijama infantil, disse:<\/p>\n<p>\u2014 Eu quero entrar no Orkut s\u00f3 para fazer parte da comunidade <em>Eu Amo Red Hot Chili Peppers<\/em>.<\/p>\n<p>Pedro, surpreso, olhou para ele e come\u00e7ou a rir, n\u00e3o de deboche, mas de genu\u00edna descoberta.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o o garoto mudo gosta de rock tamb\u00e9m?<\/p>\n<p>Lucas respondeu em gesto, um canto da boca se erguendo num quase-sorriso, e o clima come\u00e7ou a mudar.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas, agora, come\u00e7aram a jogar juntos, a conversa fluindo para suas bandas e m\u00fasicas favoritas, uma irmandade instant\u00e2nea forjada em acordes distorcidos e pixels piscantes.<\/p>\n<p>Foi a\u00ed que a ideia surgiu, impulsionada pelo desejo silencioso de Pedro. Ele queria colocar uma m\u00fasica que fosse uma deixa, um sinal para Lorena. Virou-se para Lucas:<\/p>\n<p>\u2014 E a tua prima, a Lorena&#8230; ela gosta de rock tamb\u00e9m?<\/p>\n<p>Lucas pensou por um momento, pressionando seu combo no jogo.<\/p>\n<p>\u2014 O quarto dela \u00e9 cheio de p\u00f4ster do <em>Evanescence<\/em>.<\/p>\n<p>Pedro, ent\u00e3o, pegou uma das fichas sujas de suor e poeira e se afastou em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 jukebox antiga da loja, sem dizer uma palavra. Ficou l\u00e1 por um tempo, as m\u00e3os suando enquanto mexia nas op\u00e7\u00f5es, enquanto Marcos e Lucas observavam, sem saber exatamente o que ele estava fazendo, mas suspeitando.<\/p>\n<p>Apertou o bot\u00e3o. Ao som das primeiras notas dram\u00e1ticas de <em>Bring Me to Life<\/em>, do <em>Evanescence<\/em>, os amigos soltaram uma risada, reconhecendo a ousadia. O tempo fluiu entre risadas e a competi\u00e7\u00e3o amig\u00e1vel, at\u00e9 que uma m\u00e3o desconhecida, fina e com unhas pintadas de preto, colocou mais fichas na m\u00e1quina.<\/p>\n<p>\u2014 Cortesia do meu av\u00f4 \u2014 disse Lorena, com um sorriso enigm\u00e1tico no rosto, seus olhos fixos em Pedro, que sentiu o rosto queimar.<\/p>\n<p>\u2014 Que tal um campeonato, molecada? \u2014 Seu Z\u00e9 apareceu de tr\u00e1s do balc\u00e3o com seu jeito brincalh\u00e3o, esfregando as m\u00e3os em um pano. \u2014 Quem vencer leva um lanche com refri por conta da casa!<\/p>\n<p>Os meninos se animaram. Era simples, mas m\u00e1gico, como tudo naquele canto perdido do bairro. Enquanto jogavam e se revezavam, Pedro e Lorena acabaram eliminados nas primeiras rodadas, restando lado a lado, presos em um sil\u00eancio denso e carregado, at\u00e9 que ela o quebrou, sua voz um tom mais baixo, quase um sussurro:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 voc\u00ea que anda me procurando?<\/p>\n<p>Pedro hesitou. Em nenhum momento ele imaginou que ela poderia saber, ou notar, que ele ficava indo l\u00e1 atr\u00e1s dela. Mas \u00e9 claro que ela saberia. Algu\u00e9m como ela perceberia tudo. Decidiu que a verdade era a melhor moeda.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 que eu lembrei de voc\u00ea&#8230; \u2014 ele come\u00e7ou, os olhos fixos nas costas de Lucas, que jogava. \u2014 De quando brinc\u00e1vamos juntos. Eu me mudei h\u00e1 pouco e&#8230; bem, ainda n\u00e3o conhe\u00e7o muita gente. E a\u00ed me lembrei.<\/p>\n<p>Ela encarou a tela da m\u00e1quina, ponderando, seu olhar afiado contra a luz do fl\u00edper.<\/p>\n<p>\u2014 Ah&#8230; Eu lembro. Mas n\u00e3o brinco mais de pique-pega, se \u00e9 isso o que voc\u00ea quer.<\/p>\n<p>Pedro riu, um pouco nervoso com a frieza dela, mas rapidamente explicou:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, claro que n\u00e3o! \u00c9 que&#8230; Eu soube que voc\u00ea gosta de rock. Eu tamb\u00e9m gosto. Pra caramba. E eu pensei, j\u00e1 que estou por aqui&#8230;<\/p>\n<p>Ela o encarou por alguns segundos, desconfiada, e perguntou, cortando-o:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea s\u00f3 colocou <em>Evanescence<\/em> s\u00f3 porque sabe que eu&#8230;<\/p>\n<p>Pedro se apressou a interromper, suas palavras saindo em um turbilh\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o foi por isso! Eu tamb\u00e9m gosto! S\u00e9rio! Tenho um monte de m\u00fasica no meu computador e, tipo, eu baixo tudo de MP3 e gravo CDs. At\u00e9 fa\u00e7o as capinhas. \u00c9 legal. Escuto no r\u00e1dio do carro do meu tio com ele.<\/p>\n<p>A express\u00e3o de Lorena se suavizou um grau, a desconfian\u00e7a dando lugar a um interesse cauteloso. Ela parecia mais receptiva, o bra\u00e7o cruzado relaxou um pouco.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00e9rio? \u2014 perguntou ela, ainda com um toque de desafio, mas agora misturado com curiosidade. \u2014 Ent\u00e3o&#8230; Voc\u00ea consegue fazer isso para mim? Gravar umas m\u00fasicas? Eu tenho umas que eu adoro, mas n\u00e3o sei como fazer isso sozinha.<\/p>\n<p>E foi assim que a conversa deles come\u00e7ou a fluir, timidamente, com Pedro e Lorena se reconectando n\u00e3o atrav\u00e9s das mem\u00f3rias de inf\u00e2ncia, mas atrav\u00e9s dos fios fr\u00e1geis de uma paix\u00e3o compartilhada. O que antes parecia um encontro for\u00e7ado, logo virou uma troca genu\u00edna de interesses, um arquivo .zip de m\u00fasicas e significados, e o in\u00edcio de uma amizade que sentia ser a \u00fanica coisa real naquele lugar de sombras e segredos.<\/p>\n<p>A chuva come\u00e7ou de repente, sem aviso, transformando a poeira da Rua dos Perp\u00e9tuos em pequenas crateras de lama. Em minutos, um dil\u00favio torrencial isolava o mundo do lado de fora das janelas. Foi o pai de Lucas quem resolveu a situa\u00e7\u00e3o: com a estrada j\u00e1 intransit\u00e1vel para as bicicletas, ligou para os pais de Pedro e de Marcos.<\/p>\n<p>\u2014 Fiquem tranquilos, eles t\u00e3o bem aqui. A Dona Marta j\u00e1 t\u00e1 fazendo um macarr\u00e3o pra galera. \u00c9 fim de semana, amanh\u00e3 ningu\u00e9m precisa levantar cedo. Podem ficar \u00e0 vontade.<\/p>\n<p>Dentro da casa de Seu L\u00facio, o clima era quente e abafado pelo vapor da panela na cozinha. Sem videogame ou computador, \u2013 um dos grandes motivos pelos quais Lucas reclamava dos fins de semana na casa do pai \u2013 o grupo se virava com o que tinha. Jogaram partidas de Uno com um baralho velho e amassado, riram de hist\u00f3rias embara\u00e7osas da escola e, quando a energia caiu por uns dez minutos, fizeram sombras de animais com as m\u00e3os na luz de uma vela, as silhuetas dan\u00e7ando nas paredes desconchavadas.<\/p>\n<p>Seu L\u00facio, observando da mesa da sala enquanto consertava uma ferramenta, n\u00e3o conseguia disfar\u00e7ar uma ponta de emo\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o via o filho t\u00e3o solto e feliz h\u00e1 anos. Lucas, que normalmente ficava fechado no quarto ou resmungando sobre o t\u00e9dio, ria alto e genuinamente com os amigos, mesmo sem nenhuma tela para entret\u00ea-lo. Era uma cena simples, mas que aquecia o cora\u00e7\u00e3o do homem.<\/p>\n<p>Depois da janta, com a chuva ainda tamborilando no telhado de zinco, eles se acomodaram no ch\u00e3o da sala, sobre cobertores e travesseiros velhos. Foi nesse clima de intimidade for\u00e7ada pela tempestade que Lorena, sempre a agente do caos, trouxe \u00e0 tona o assunto.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00eas j\u00e1 ouviram falar da esta\u00e7\u00e3o de trem abandonada?<\/p>\n<p>Os rapazes se sentiram mais assustados do que a menina. Marcos, encostado no sof\u00e1, puxou o cobertor at\u00e9 o queixo num exagero c\u00f4mico.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 ouvi, mas dizem que \u00e9 perigosa. Depois do acidente&#8230; \u2014 Marcos parou, incerto se deveria continuar.<\/p>\n<p>Lorena sorriu, satisfeita em ver os outros t\u00e3o atentos.<\/p>\n<p>\u2014 Dizem que o trem ainda passa de madrugada, mesmo com a esta\u00e7\u00e3o deserta.<\/p>\n<p>\u2014 Passa mesmo \u2014 respondeu Pedro, a voz saindo mais firme do que ele esperava.<\/p>\n<p>Os olhos de Lorena brilharam, fixos nele como far\u00f3is. Ela se inclinou levemente para frente, apoiando o queixo na m\u00e3o, o cotovelo fincado no joelho.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea j\u00e1 viu? \u2014 perguntou, quase num sussurro, mas com uma intensidade que fez o rosto de Pedro esquentar instantaneamente.<\/p>\n<p>Ele olhou rapidamente para os outros, tentando medir a rea\u00e7\u00e3o. Os olhares voltaram-se todos para ele.<\/p>\n<p>\u2014 E-eu&#8230; j\u00e1&#8230; vi, sim. \u2014 A voz dele falhou por um instante, mas ele continuou, sentindo o peso da expectativa de Lorena. \u2014 Era tarde. Eu&#8230; ouvi o apito primeiro, um som baixo e abafado, depois vi as luzes na linha do trem&#8230; luzes fracas, amareladas.<\/p>\n<p>\u2014 E\u2026? \u2014 Lorena inclinou a cabe\u00e7a, o olhar dela o prendendo no lugar como uma armadilha.<\/p>\n<p>Pedro hesitou, revivendo a mem\u00f3ria. A figura sobre o vag\u00e3o, a escurid\u00e3o das janelas.<\/p>\n<p>\u2014 Parecia vazio, mas n\u00e3o. N\u00e3o sei explicar. Tinha&#8230; uma presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Ela ergueu as sobrancelhas, um sorriso intrigado nos l\u00e1bios, mas logo desviou o olhar dele para a janela encharcada. Pedro sentiu o momento escapar como areia entre os dedos. Ele tinha a aten\u00e7\u00e3o dela, mas n\u00e3o soube o que fazer com ela.<\/p>\n<p>As hist\u00f3rias ent\u00e3o flu\u00edram, alimentadas pelo ambiente. Luzes estranhas, gente desaparecida, rumores sobre o sobrenatural. Marcos entrou no clima, fazendo uma pausa dram\u00e1tica ap\u00f3s cada frase.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 ouvi falar de luzes estranhas, gente que some e aparece em lugares diferentes&#8230; \u2014 disse ele, observando as rea\u00e7\u00f5es dos amigos. \u2014 Tem at\u00e9 quem diga que o Chupa-cu anda por l\u00e1, sugando a energia de quem se aproxima, e que o Homem do Saco aparece para levar quem se perde no caminho. Sem contar os rumores sobre o Sete Al\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>Lucas riu, um som seco e curto, mas com um tom de desconforto inconfund\u00edvel. Ele puxou os joelhos contra o peito.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, essas hist\u00f3rias&#8230; Meu pai contava pra assustar a gente quando eu era pequeno. Acho que era pra gente n\u00e3o fu\u00e7ar por ali.<\/p>\n<p>Pedro, que nunca havia ido t\u00e3o longe, sabia que a linha do trem marcava o fim da Rua dos Perp\u00e9tuos e o in\u00edcio do desconhecido. Era a fronteira.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, voc\u00eas v\u00e3o comigo ou n\u00e3o? \u2014 Lorena desafiou, levantando uma sobrancelha, a provoca\u00e7\u00e3o estampada no rosto. \u2014 Porque se voc\u00eas n\u00e3o forem, eu vou sozinha de qualquer jeito.<\/p>\n<p>Marcos e Lucas olharam um para o outro, hesitantes. Pedro, mesmo sem saber o que esperar, sentiu uma mistura de excita\u00e7\u00e3o e apreens\u00e3o, um frio na barriga que n\u00e3o era totalmente desagrad\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o podemos sair \u00e0 noite \u2014 Lucas contra-argumentou, pragm\u00e1tico. \u2014 Voc\u00ea sabe que nossos pais n\u00e3o iam deixar. A minha m\u00e3e, se souber, vai pirar.<\/p>\n<p>Lorena soltou uma risada r\u00e1pida, zombando:<\/p>\n<p>\u2014 Ah, \u00e9 claro. Mas eu quero ir durante o dia, at\u00e9 porque, o que eu vou ver se l\u00e1 estiver um breu total? Nada. N\u00e3o faz sentido, n\u00e9? Vamos de manh\u00e3, assim que a chuva der uma tr\u00e9gua.<\/p>\n<p>Com isso, olhando para a determina\u00e7\u00e3o nos olhos de Lorena e para a curiosidade t\u00edmida no rosto de Pedro, os tr\u00eas finalmente concordaram, com um resmungo coletivo.<\/p>\n<p>Lorena completou, como se a decis\u00e3o fosse um al\u00edvio t\u00e3o esperado:<\/p>\n<p>\u2014 Depois que a chuva passar, de manh\u00e3, n\u00f3s vamos.<\/p>\n<p>E, l\u00e1 fora, a chuva continuava a cair, lavando o palco para a aventura que se aproximava.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, o sol surgiu como um milagre duvidoso, trazendo um calor breve e \u00famido que grudava as roupas na pele. Pedro encontrou o pai esperando no port\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos dar uma volta no bairro \u2014 disse, com um sorriso que era uma obra-prima de disfarce.<\/p>\n<p>\u2014 Sem problemas \u2014 respondeu o pai. \u2014 S\u00f3 n\u00e3o se afastem muito.<\/p>\n<p>Os pais confiavam; os jovens sabiam que n\u00e3o deviam.<\/p>\n<p>O grupo seguiu at\u00e9 onde o asfalto acabava. L\u00e1 estavam os trilhos, velhos e enferrujados.<\/p>\n<p>\u2014 Aposto que n\u00e3o conseguem chegar at\u00e9 o fim da linha sem cair \u2014 desafiou Marcos, pulando sobre um dos trilhos de a\u00e7o com um ar provocador.<\/p>\n<p>\u2014 Que fim? \u2014 perguntou Lucas. \u2014 O fim do mundo?<\/p>\n<p>\u2014 O fim da linha, tonto!<\/p>\n<p>\u2014 T\u00e1 achando que \u00e9 o que, o mestre dos trilhos? \u2014 Lorena cutucou, rolando os olhos, mas j\u00e1 se posicionando no trilho paralelo. \u2014 Vamos ver quem chega por \u00faltimo. O perdedor paga um Fofura pra todo mundo.<\/p>\n<p>\u2014 Eu ven\u00e7o! Voc\u00eas n\u00e3o sabem, mas eu tenho um talento nato de concentrar chakra nos p\u00e9s! \u2014 Pedro entrou na brincadeira, sentindo uma confian\u00e7a s\u00fabita.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, valeu, Sakura! \u2014 Lucas retrucou, tentando se equilibrar. \u2014 Mas se liga no talento do Kakashi Sensei aqui.<\/p>\n<p>\u2014 Ei, porque voc\u00ea \u00e9 o Kakashi? \u2014 questionou Marcos, cambaleando.<\/p>\n<p>Lucas usou uma das m\u00e3os para puxar uma mecha de cabelo dos lados.<\/p>\n<p>\u2014 Eu j\u00e1 tenho at\u00e9 cabelo branco, olha s\u00f3.<\/p>\n<p>\u2014 Grisalho aos doze! \u2014 zombou Pedro.<\/p>\n<p>\u2014 Se voc\u00ea \u00e9 o Kakashi e o Pedro \u00e9 a Sakura, ent\u00e3o quem eu sou? \u2014 perguntou Marcos.<\/p>\n<p>\u2014 O Naruto, n\u00e3o \u00e9 \u00f3bvio? \u2014 respondeu Lucas.<\/p>\n<p>Na mesma hora, Marcos escorregou, caiu no cascalho entre os trilhos e subiu de novo rapidamente, sob as risadas do grupo.<\/p>\n<p>\u2014 Ei, eu n\u00e3o sou a Sakura! \u2014 Pedro reclamou, corando. \u2014 Se algu\u00e9m tem que ser a Sakura tem que ser a menina do grupo!<\/p>\n<p>\u2014 Cala a boca, Sakura! \u2014 Lorena comentou, sem se virar. \u2014 Eu t\u00f4 muito mais pro Sasuke.<\/p>\n<p>\u2014 Exato! \u2014 Lucas finalizou, com um sorriso maldoso. \u2014 Lorena \u00e9 o Sasuke e Pedro \u00e9 a Sakura correndo atr\u00e1s.<\/p>\n<p>A piada caiu como uma bomba. Pedro engoliu em seco, sem saber onde esconder o rosto. A implic\u00e2ncia podia ser sobre ele estar andando no trilho atr\u00e1s dela, ou por ter ido atr\u00e1s dela na loja, ou por algo mais&#8230; subentendido. Lorena olhou rapidamente para tr\u00e1s, por cima do ombro, o suficiente para captar sua rea\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o o suficiente para perder o equil\u00edbrio. Ningu\u00e9m falou nada. O ar ficou carregado por um segundo antes de todos, por um acordo t\u00e1cito, ignorarem o assunto.<\/p>\n<p>No caminho, Os muros que ladeavam os trilhos eram uma galeria a c\u00e9u aberto. Algu\u00e9m tinha pichado <em>SDV<\/em> em letras g\u00f3ticas, <em>FLA<\/em> em caixa alta, um palha\u00e7o com chap\u00e9u de bobo, o s\u00edmbolo do Sapo que todo mundo sabia o que significava mas ningu\u00e9m falava. E, em algum lugar no meio daquilo, um cora\u00e7\u00e3o rabiscado com <em>M + J<\/em> dentro, amor juvenil que a chuva j\u00e1 tinha quase apagado.<\/p>\n<p>Marcos apontou para o palha\u00e7o pichado e, com a maior cara s\u00e9ria do mundo, declarou:<\/p>\n<p>\u2014 Sabia que o Batman foi parar no hosp\u00edcio?<\/p>\n<p>Pedro e Lucas olharam um para o outro.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea? \u2014 perguntou Lucas, j\u00e1 se preparando para o pior.<\/p>\n<p>\u2014 Porque ele tava coringando.<\/p>\n<p>Marcos soltou uma risada curta e rouca, t\u00edpica de quem tinha decorado aquela piada do Hermes e Renato e esperava meses para us\u00e1-la.<\/p>\n<p>Aos poucos, as brincadeiras foram morrendo. O mundo ao seu redor mudava. A paisagem urbana se esva\u00eda completamente, dando lugar ao avan\u00e7o silencioso e opressivo do Mato Sabino. O sil\u00eancio ali era diferente. Nem inseto fazia barulho. Era como se o mato estivesse\u2026 esperando.<\/p>\n<p>Pedro tirou o celular do bolso, um Nokia 1110, tanque de guerra, a tela monocrom\u00e1tica e a antena durinha. O bichinho era indestrut\u00edvel, mas naquele lugar n\u00e3o adiantava nada. Zero barras. A Vivo n\u00e3o pegava ali, a Oi tamb\u00e9m n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Algu\u00e9m tem sinal? \u2014 perguntou, j\u00e1 sabendo a resposta.<\/p>\n<p>Lucas balan\u00e7ou a cabe\u00e7a. Marcos nem se deu ao trabalho de olhar. Lorena apenas encarou os muros da f\u00e1brica, indiferente.<\/p>\n<p><em>Estamos sozinhos aqui<\/em>, Pedro disse pra si mesmo.<\/p>\n<p>\u2014 Nossa, que fim de mundo \u2014 Lucas resmungou, olhando para a mata fechada. \u2014 Bem que minha m\u00e3e diz que n\u00e3o tem absolutamente nada aqui.<\/p>\n<p>\u2014 Daria qualquer coisa por um cinema ou um shopping que n\u00e3o fosse aquele da cidade, que parece uma caixa de sapato \u2014 disse Lorena.<\/p>\n<p>A declara\u00e7\u00e3o surpreendeu um pouco os outros. Ela n\u00e3o era o tipo de garota de shopping.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9&#8230; Eu tamb\u00e9m achava \u2014 Pedro falou, pensativo. \u2014 Mas sei l\u00e1. Comecei a pensar que talvez&#8230; ter <em>nada <\/em>talvez seja melhor do que ter um monte de coisa que n\u00e3o presta. Voc\u00eas n\u00e3o acham?<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que Marcos, que havia ficado quieto por um bom tempo, absorvendo a paisagem, falou sem olhar para ningu\u00e9m, sua voz um tom mais baixo que o normal.<\/p>\n<p>\u2014 Sim. Pelo menos aqui \u00e9 silencioso. \u2014 Ele fez uma pausa, ouvindo o cricrilar dos grilos. \u2014 Escutem isso. S\u00f3 os bichos e a gente. \u00c9 mil vezes melhor que o barulho ensurdecedor das brigas do meu pai em casa. Parece que as paredes v\u00e3o cair.<\/p>\n<p>Um sil\u00eancio pesado caiu sobre o grupo. Lucas, cujos pais eram separados, engoliu em seco e desviou o olhar. Pedro e Lorena se entreolharam. Naquele breve contato, uma conversa inteira e silenciosa aconteceu: um misto de pena, incompreens\u00e3o e um al\u00edvio agradecido por n\u00e3o carregarem aquele mesmo fardo.<\/p>\n<p>\u2014 T\u00e1 sentindo isso? \u2014 Lucas sussurrou.<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea? \u2014 perguntou Marcos.<\/p>\n<p>\u2014 Parece que&#8230; tem mais algu\u00e9m aqui.<\/p>\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o foi quebrada por uma vis\u00e3o que se imp\u00f4s \u00e0 frente, quando contornaram uma curva suave nos trilhos.<\/p>\n<p>L\u00e1 estavam eles. Os muros da f\u00e1brica abandonada, altos e severos como os muros de uma fortaleza amaldi\u00e7oada. A ferrugem escorria como sangue seco pela alvenaria. Um frio que nada tinha a ver com o clima percorreu suas espinhas.<\/p>\n<p>Os port\u00f5es de ferro, tortos e corro\u00eddos, rangiam com o vento, um som agudo e doloroso. Cada passo que davam em dire\u00e7\u00e3o \u00e0quele lugar era como uma invas\u00e3o, um pecado contra a quietude daquilo que preferia ser esquecido.<\/p>\n<p>Eles pararam diante do port\u00e3o, o grupo unido, o cora\u00e7\u00e3o batendo forte no peito. A brincadeira nos trilhos tinha acontecido numa outra vida. Agora, s\u00f3 restava o sil\u00eancio pesado da f\u00e1brica e o eco dos segredos que ela guardava.<\/p>\n<p>A f\u00e1brica de tecidos, outrora o orgulho de P\u00e1ssaro Branco, estava em ru\u00ednas. O acidente do trem destru\u00edra boa parte da estrutura, e o tempo fizera o resto. Havia buracos por toda parte: no telhado, nas paredes, e principalmente no muro dos fundos, onde um rombo grande o suficiente para passar um caminh\u00e3o servia de entrada principal para quem quer que estivesse usando o lugar agora.<\/p>\n<p>Dentro, o ar era pesado e doentio. Uma poeira grossa cobria as m\u00e1quinas de tear abandonadas, mas no ch\u00e3o, trilhas recentes marcavam o caminho entre pilhas de caixas de madeira. Pedro notou algo estranho preso nas vigas de ferro acima: grossas correntes enferrujadas, com ganchos grandes e sinistros na ponta, balan\u00e7ando levemente. Eram antigos, da \u00e9poca da f\u00e1brica, mas a ferrugem em alguns estava manchada de algo mais escuro e recente.<\/p>\n<p>\u2014 Parece coisa de a\u00e7ougue \u2014 sussurrou Lucas, p\u00e1lido.<\/p>\n<p>Eles seguiram em sil\u00eancio at\u00e9 a antiga plataforma de carga, onde os trilhos terminavam abruptamente contra um muro de concreto. Foi quando Pedro apontou para as marcas no ch\u00e3o: pegadas frescas de botas, muitas delas, indo e vindo de um galp\u00e3o anexo.<\/p>\n<p>No ch\u00e3o, sob as correntes, algo brilhava. Era uma unha. Inteira. Arrancada pela raiz.<\/p>\n<p>\u2014 \u00a0Algu\u00e9m ainda usa esse lugar&#8230;<\/p>\n<p>Seguindo as pegadas, encontraram o galp\u00e3o cheio de caixas empilhadas at\u00e9 o teto. V\u00e1rias estavam abertas, revelando sacos pl\u00e1sticos transparentes cheios de um p\u00f3 branco-amarelado. O cheiro era estranhamente adocicado e qu\u00edmico, com um fundo acre que ardia no fundo da garganta.<\/p>\n<p>\u2014 O que \u00e9 isso? \u2014 perguntou Marcos, franzindo o nariz e recuando instintivamente.<\/p>\n<p>Antes que pudessem especular, vozes masculinas ecoaram do corredor principal.<\/p>\n<p>\u2014 \u2026carga pronta para o embarque das 2h \u2014 dizia uma voz. \u2014 O trem para no ponto usual.<\/p>\n<p>\u2014 Certo, s\u00f3 n\u00e3o repitam o erro do \u00faltimo m\u00eas\u2026 \u2014 outra voz respondeu.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as congelaram. N\u00e3o era um fantasma \u2014 era algo muito pior.<\/p>\n<p>\u2014 Ei! O que voc\u00eas est\u00e3o fazendo aqui? \u2014 rugiu um homem alto e magro, surgindo de uma porta lateral.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 est\u00e1vamos de sa\u00edda! \u2014 Marcos respondeu em tom ir\u00f4nico, mas sua voz tr\u00eamula tra\u00eda o medo.<\/p>\n<p>\u2014 Pega eles. Faz igual ao \u00faltimo \u2014 ordenou a voz do homem mais velho.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00e3o s\u00f3 crian\u00e7as travessas \u2014 disse um homem mais velho, aparecendo atr\u00e1s do primeiro.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9, mas eles nos viram! \u2014 o homem magro insistiu. \u2014 E agora, Nelson, o que a gente faz?<\/p>\n<p>O chefe, o homem mais velho \u2014 Nelson \u2014 explodiu:<\/p>\n<p>\u2014 Idiota! N\u00e3o me chama pelo nome! Agora sim vamos ter que matar eles!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00f3s n\u00e3o vimos nada! N\u00f3s nem sabemos o que tem aqui. Eu juro! \u2014 se apressou Lucas a responder, suas m\u00e3os tremendo.<\/p>\n<p>\u2014 Temos que sair daqui! \u2014 sussurrou Pedro, puxando Lorena pelo bra\u00e7o.<\/p>\n<p>Os homens entreolharam-se, e ent\u00e3o Nelson, com uma frieza que gelou o sangue de todos, decretou:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o podemos deixar que saiam daqui. Fa\u00e7am o que for necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>O que se seguiu foi um pesadelo. Os homens avan\u00e7aram, e as crian\u00e7as correram como se o pr\u00f3prio inferno estivesse atr\u00e1s deles, porque estava.<\/p>\n<p>Eles correram pelo labirinto de m\u00e1quinas, desviando de cabos soltos e pilhas de destro\u00e7os. De repente, o som seco de um tiro cortou o ar, fazendo todos se abaixarem instintivamente. A bala zuniu perigosamente perto, ricocheteando no metal.<\/p>\n<p>\u2014 Parem de atirar, seus idiotas! A gente precisa ach\u00e1-los! \u2014 gritou Nelson.<\/p>\n<p>Pedro trope\u00e7ou em um cabo, mas Lucas o puxou com for\u00e7a brutal.<\/p>\n<p>\u2014 Corre, porra! Corre, caralho!!!<\/p>\n<p>Encontraram uma sa\u00edda lateral e se jogaram para o lado de fora, direto para a beira do Mato Sabino.<\/p>\n<p>\u2014 Pelo meio do matagal? \u2014 Marcos hesitou, os olhos arregalados de terror.<\/p>\n<p>\u2014 Ou isso ou eles nos pegam! \u2014 gritou Lorena, j\u00e1 mergulhando na escurid\u00e3o verde.<\/p>\n<p>A floresta os envolveu como uma boca faminta. Galhos arranhavam seus bra\u00e7os e rostos enquanto corriam cegamente. Os homens os seguiram, mas mais devagar, hesitantes em entrar no matagal fechado.<\/p>\n<p>\u2014 Ali! Eles entraram no mato! \u2014 ouviu-se a voz \u00e1spera de Nelson atr\u00e1s deles.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que algo mudou. Um rugido gutural e profundo ecoou atrav\u00e9s da mata, um som que vinha da pr\u00f3pria terra. Os perseguidores pararam abruptamente.<\/p>\n<p>\u2014 O que foi isso?! \u2014 perguntou um deles, visivelmente assustado.<\/p>\n<p>\u2014 Cuidado! Tem algo aqui! \u2014 gritou outro, sua voz tremendo.<\/p>\n<p>O rugido veio de novo, mais perto. Ent\u00e3o, um estalo seco. O grito de Nelson n\u00e3o foi de susto. Foi de dor que virou choro, que virou s\u00faplica, que foi interrompida por um som molhado e arrastado, como algo sendo puxado para dentro da terra. Depois, s\u00f3 o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 MEU DEUS! MINHA M\u00c3O&#8230; \u2014 era a voz de Nelson, mas distorcida por uma agonia inimagin\u00e1vel.<\/p>\n<p>Outros gritos, mais tiros disparados ao acaso, e ent\u00e3o o som de homens correndo em p\u00e2nico para longe do p\u00e2ntano, deixando para tr\u00e1s o uivo de dor e o choro de desespero de seu l\u00edder.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as n\u00e3o olharam para tr\u00e1s. Correram at\u00e9 que os trilhos abandonados apareceram diante deles como um sinal de salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Por um triz, gente, por um triz \u2014 desabafou Marcos ofegante. \u2014 Foi quase um atropelamento de carro\u00e7a!<\/p>\n<p>Quando finalmente chegaram \u00e0 Rua dos Perp\u00e9tuos, os pais os esperavam, rostos p\u00e1lidos de preocupa\u00e7\u00e3o. Os adultos haviam ouvido os tiros e sa\u00edram desesperados \u00e0 procura dos filhos.<\/p>\n<p>Enquanto recebiam broncas e abra\u00e7os apertados, Pedro olhou para o Mato Sabino ao longe.<\/p>\n<p>\u2014 Pedro, pelo amor de Deus, a gente combinou de n\u00e3o morrer, n\u00e3o \u00e9?! \u2014 gritava o pai sem que o filho escutasse.<\/p>\n<p>O que quer que tivesse atacado Nelson, ele sabia que n\u00e3o era algo que gostaria de encontrar novamente.<\/p>\n<p>Por semanas, as crian\u00e7as n\u00e3o deram as caras na rua. O castigo, combinado com o medo visceral de que outros homens pudessem estar por perto, as manteve longe de qualquer aventura. Depois daquele dia, quase ningu\u00e9m no bairro ficava na rua depois das nove. Viaturas come\u00e7aram a aparecer com frequ\u00eancia, mas nunca ficavam por muito tempo.<\/p>\n<p>Naquelas semanas, ningu\u00e9m mais viu o trem. J\u00e1 Pedro evitava olhar para os trilhos \u00e0 noite. N\u00e3o s\u00f3 por medo daqueles homens, mas porque sabia que<br \/>\ntinha visto outra coisa.<\/p>\n<p>Quase um m\u00eas depois, a not\u00edcia se espalhou: a pol\u00edcia cercara a f\u00e1brica abandonada depois de uma den\u00fancia an\u00f4nima. Os comparsas de Nelson, presos em uma batida em outra cidade, tinham cantado. A quadrilha foi desmantelada. Nos depoimentos, os bandidos contaram uma hist\u00f3ria que ningu\u00e9m na delegacia levou a s\u00e9rio, mas que correu como rastilho de p\u00f3lvora por P\u00e1ssaro Branco: disseram que Nelson fora atacado por uma <em>fera do p\u00e2ntano <\/em>que lhe arrancara a m\u00e3o direita. Seu corpo nunca foi encontrado, apenas seu sangue seco no mato. Dado como desaparecido e presumidamente morto, o caso foi arquivado.<\/p>\n<p>\u2014 Eu sempre falei que aquele lugar era amaldi\u00e7oado! \u2014 exclamava a m\u00e3e de Marcos com os vizinhos na cal\u00e7ada. \u2014 Mas ningu\u00e9m me ouve!<\/p>\n<p>Seu Geraldo, passando com a sacola e p\u00e3o, deu sua opini\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 Disseram que a pol\u00edcia achou umas paradas l\u00e1&#8230; Isso a\u00ed n\u00e3o era fantasma n\u00e3o, era gente sem-vergonha se aproveitando. O \u00fanico fantasma que existe \u00e9 o do bolso do trabalhador no fim do m\u00eas!<\/p>\n<p>Com a not\u00edcia da pris\u00e3o dos bandidos e da <em>morte<\/em> de Nelson, um peso saiu dos ombros do bairro. A prefeitura, pressionada, finalmente se moveu. Fecharam o local e anunciaram que o terreno seria vendido para uma empresa que pretendia construir um shopping, ou pelo menos era o boato que corria pela Rua dos Perp\u00e9tuos.<\/p>\n<p>Pedro finalmente se sentiu seguro para ir \u00e0 rua novamente. Foi num s\u00e1bado de manh\u00e3 na lojinha do Seu Z\u00e9, na esperan\u00e7a de encontrar seus amigos.<\/p>\n<p>Na esquina, o Seu Jorge j\u00e1 tinha estacionado o carrinho de pipoca, com a buzina que parecia um pato gritando. N\u00e3o tinha cliente naquela hora, mas o cheiro de milho salgado j\u00e1 se espalhava pela rua.<\/p>\n<p>Seu Z\u00e9 estava levantando a porta de ferro quando o viu.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, ora! Achei que voc\u00ea tinha me abandonado, moleque! \u2014 disse com um sorriso.<\/p>\n<p>\u2014 Tava ocupado&#8230; \u2014 respondeu Pedro, encolhendo os ombros, mas n\u00e3o explicou mais nada.<\/p>\n<p>Lucas chegou logo em seguida, ajudando Seu Z\u00e9 a arrumar as prateleiras. Ele acenou com um sorriso t\u00edmido para Pedro. Pouco depois, Marcos apareceu.\u00a0Marcos chegou, vestindo uma camisa do Flamengo t\u00e3o velha que o n\u00famero nas costas j\u00e1 tinha desbotado.<\/p>\n<p>\u2014 Olha s\u00f3 quem t\u00e1 aqui! \u2014 disse Marcos, dando um tapa amig\u00e1vel nas costas de Lucas.\u00a0 \u2014 Achei que sua m\u00e3e tinha te proibido de vir pra c\u00e1!<\/p>\n<p>Seu Z\u00e9, saudoso da movimenta\u00e7\u00e3o dos garotos, puxou tr\u00eas fichas do bolso e as entregou.<\/p>\n<p>\u2014 Hoje \u00e9 por conta da casa. S\u00f3 n\u00e3o me sumam de novo, hein?<\/p>\n<p>Os tr\u00eas riram e foram at\u00e9 a m\u00e1quina de Arcade no canto da loja. O som familiar dos bot\u00f5es apertados no <em>Street Fighter<\/em> encheu o lugar. O pr\u00f3prio senhor ligou a jukebox e botou uma das m\u00fasicas que eles gostavam de ouvir.<\/p>\n<p>Enquanto jogava, Pedro sentia um peso no peito. As mem\u00f3rias daquele dia no Mato Sabino e na f\u00e1brica vinham \u00e0 tona como flashes. O rugido na floresta, os tiros, o medo, e, principalmente, aquela sensa\u00e7\u00e3o de que eles tinham escapado por muito pouco. Ele estava t\u00e3o absorto em seus pensamentos que n\u00e3o percebeu Lorena at\u00e9 que ela esbarrou-o dando-lhe uma ombrada.<\/p>\n<p>\u2014 Ei, seu nerd, no mundo da lua de novo? \u2014 provocou Lorena, com um sorriso.<\/p>\n<p>Pedro corou, sem saber o que responder. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, ela continuou:<\/p>\n<p>\u2014 Pensa pelo lado bom: se a gente n\u00e3o tivesse ido l\u00e1, a pol\u00edcia n\u00e3o teria prendido aqueles bandidos.<\/p>\n<p>Por um momento, todos sentiram um pouco de raiva por ela t\u00ea-los convencido a ir at\u00e9 l\u00e1, mas o al\u00edvio tomou conta do grupo, e ent\u00e3o come\u00e7aram a rir. Lorena, sempre com seu jeito direto, tinha o dom de quebrar o clima pesado.<\/p>\n<p>Pedro, no entanto, sentiu seu rosto queimar quando pensou no jeito que Lorena encostou nele para despert\u00e1-lo e que s\u00f3 disse aquelas palavras porque viu a preocupa\u00e7\u00e3o em seu rosto. Ele balan\u00e7ou a cabe\u00e7a, afastando esse pensamento.<\/p>\n<p>Eles n\u00e3o falaram que sentiram saudades uns dos outros. N\u00e3o precisavam. O sil\u00eancio confort\u00e1vel entre eles dizia o suficiente. Ficaram ali, jogando fliperama, ouvindo rock e rindo.<\/p>\n<p>O trem assustador da madrugada nunca mais passou. Embora assim o Mato parecesse cada vez mais perto, Pedro finalmente conseguiu ter descanso a noite.<\/p>\n<hr \/>\n<h1><strong>P o s f \u00e1 c i o<\/strong><\/h1>\n<p>Costurando as Sombras de P\u00e1ssaro Branco<\/p>\n<p><strong><em>Os Contos do Mato Sabino<\/em><\/strong> nasceram em antologias tem\u00e1ticas, cada uma uma pe\u00e7a solit\u00e1ria de um quebra-cabe\u00e7a maior. A oportunidade de reuni-las em um volume \u00fanico, no entanto, foi como devolver essas almas errantes \u00e0 sua casa verdadeira: a cronologia.<\/p>\n<p><strong><em>O Trem da Madrugada<\/em><\/strong> <a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Contos-sobre-Trilhos-Ninho-Escritores\/dp\/B0GK2ZKC17\">(originalmente em <em>Contos Sobre Trilhos <\/em>do Ninho de Escritores)<\/a>: Esta foi a semente. No volume \u00fanico, pude dar nomes e rostos \u00e0 fam\u00edlia de Pedro, respirar vida na Rua dos Perp\u00e9tuos al\u00e9m do mist\u00e9rio, mostrando o calor humano que torna o horror subsequente ainda mais pungente. A semente do vil\u00e3o, plantada aqui, s\u00f3 floresceria mais tarde.<\/p>\n<hr \/>\n<h1><strong>A p \u00ea n d i c e<\/strong><\/h1>\n<p>As Ra\u00edzes e os Galhos Sombrios de P\u00e1ssaro Branco<\/p>\n<p><em>Um olhar sobre as inspira\u00e7\u00f5es que fertilizaram o solo onde o Mato Sabino cresceu.<\/em><\/p>\n<h3><strong>P\u00e1ssaro Branco e o Peso do Lugar<\/strong><\/h3>\n<p>P\u00e1ssaro Branco n\u00e3o \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o pura, mas um espectro. Ele \u00e9 inspirado em um bairro real onde passei minha adolesc\u00eancia, um daqueles lugares onde o asfalto encontra o mato e os segredos s\u00e3o enterrados no quintal. A sensa\u00e7\u00e3o de isolamento, a vida comunit\u00e1ria intensa e as <em>coisas ruins verdadeiras<\/em> que aconteciam nas bordas da percep\u00e7\u00e3o foram a semente. A criatividade infantil de revestir essas realidades dif\u00edceis com uma camada de lenda urbana se tornou a base de todo o universo. O sobrenatural neste livro \u00e9, em muitos aspectos, a forma como uma crian\u00e7a processa o mal adulto \u2013 transformando-o em fantasmas, monstros e assombra\u00e7\u00f5es que, de alguma forma, s\u00e3o mais f\u00e1ceis de compreender.<\/p>\n<h3><strong>O Mato Sabino: A Fronteira Viva<\/strong><\/h3>\n<p>Assim como o bairro, o Mato Sabino tamb\u00e9m existiu. Um terreno vasto e intocado no fim da rua, uma presen\u00e7a constante e um tanto amea\u00e7adora. Ele n\u00e3o tinha esse nome, mas na minha mente, ele sempre foi uma entidade. No livro, ele se tornou o cora\u00e7\u00e3o pulsante de tudo: o reposit\u00f3rio da mem\u00f3ria, o juiz das a\u00e7\u00f5es e a fonte de todo o mist\u00e9rio. \u00c9 a fronteira f\u00edsica e espiritual onde o passado e o presente, o real e o lend\u00e1rio, se fundem.<\/p>\n<h3><strong>Os Moradores: Entre a Mem\u00f3ria e a Fic\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p><strong>Pedro e sua Fam\u00edlia:<\/strong> S\u00e3o os meus p\u00e9s na estrada. Pedro carrega minhas pr\u00f3prias ang\u00fastias de adapta\u00e7\u00e3o e a descoberta de um mundo novo e assustador. Sua fam\u00edlia \u00e9 um eco da minha, com as devidas e necess\u00e1rias distor\u00e7\u00f5es ficcionais que toda boa hist\u00f3ria exige.<\/p>\n<p><strong>Lucas e Jo\u00e3o Marcos: <\/strong>S\u00e3o tributos aos meus melhores amigos daquela \u00e9poca. Capturei seus esp\u00edritos, seus maneirismos, a din\u00e2mica de nossa amizade, mas lhes dei hist\u00f3rias familiares e conflitos pr\u00f3prios, permitindo que se tornassem pessoas \u00fanicas neste universo.<\/p>\n<p><strong>Lorena: <\/strong>Diferente dos outros, Lorena brotou inteira da imagina\u00e7\u00e3o. Ela era a pe\u00e7a que faltava: o agente do caos, o esp\u00edrito contestador e a for\u00e7a emocional que o grupo precisava. Ela \u00e9 a prova de que mesmo em um solo f\u00e9rtil de mem\u00f3rias, as flores mais vibrantes podem ser totalmente inventadas.<\/p>\n<h3><strong>As Lendas: Costurando o Folclore \u00e0 Trama<\/strong><\/h3>\n<p><strong>O Trem-Fantasma:<\/strong> As lendas de trens-fantasmas sempre me fascinaram pela sua melancolia e sentido de passagem. Aqui, quis subvert\u00ea-las. O trem n\u00e3o \u00e9 um fantasma, mas a desculpa para um. Sua fun\u00e7\u00e3o real \u2013 como ve\u00edculo para o tr\u00e1fico na f\u00e1brica abandonada \u2013 \u00e9 a raiz podre que justifica o medo e os segredos, mostrando que a verdade por tr\u00e1s de um mito pode ser mais suja e perigosa que o pr\u00f3prio mito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &#8216;\u00d3i, \u00f3i o trem, vem surgindo de tr\u00e1s das montanhas azuis, olha o trem. \u00d3i, \u00f3i o trem, vem trazendo de longe as cinzas do velho \u00e9on. \u00d3i, j\u00e1 \u00e9 vem, fumegando, apitando, chamando os que sabem do trem. \u00d3i, \u00e9 o trem, n\u00e3o precisa passagem, nem mesmo bagagem no trem . . .&#8217; [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":27389,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[3735,2620],"tags":[3623,3736,3619,3738,3620,3739,3737],"class_list":["post-27386","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-contos","category-originais","tag-conto","tag-contosdematosabino","tag-contossobretrilhos","tag-matosabino","tag-otremdamadrugada","tag-tremdamadrugada","tag-volnuttoriginals"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/terranerdica.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27386"}],"collection":[{"href":"https:\/\/terranerdica.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/terranerdica.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/terranerdica.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/terranerdica.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27386"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/terranerdica.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27386\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27390,"href":"https:\/\/terranerdica.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27386\/revisions\/27390"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/terranerdica.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/27389"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/terranerdica.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27386"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/terranerdica.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27386"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/terranerdica.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27386"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}