{"id":27286,"date":"2026-05-27T12:00:41","date_gmt":"2026-05-27T15:00:41","guid":{"rendered":"https:\/\/terranerdica.com.br\/?p=27286"},"modified":"2026-05-28T12:33:23","modified_gmt":"2026-05-28T15:33:23","slug":"critica-backrooms-um-nao-lugar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/terranerdica.com.br\/index.php\/2026\/05\/27\/critica-backrooms-um-nao-lugar\/","title":{"rendered":"Cr\u00edtica | Backrooms: Um N\u00e3o-Lugar"},"content":{"rendered":"<p>Em <strong>2019<\/strong>, algu\u00e9m jogou no f\u00f3rum 4chan uma foto banal: um escrit\u00f3rio vazio, paredes amareladas, carpete desgastado, luz de n\u00e9on. Sem janelas. Sem portas vis\u00edveis. Junto veio uma legenda que dizia, mais ou menos, que aquele era o lugar onde voc\u00ea ia parar se atravessasse a realidade por engano \u2014 um espa\u00e7o que n\u00e3o deveria existir, mas existe. Assim nasceu uma das <em>creepypastas mais potentes da hist\u00f3ria recente da internet<\/em>. Para quem n\u00e3o est\u00e1 familiarizado com o termo: creepypasta \u00e9 o nome dado \u00e0s lendas urbanas que nascem e se espalham na web \u2014 hist\u00f3rias de horror constru\u00eddas coletivamente, em camadas, por pessoas an\u00f4nimas que nunca se conheceram e que constroem um universo colaborativo a partir de uma premissa inicial. Os Backrooms viraram exatamente isso: uma mitologia digital.<\/p>\n<p>Em <strong>2022<\/strong>, um adolescente de 16 anos chamado Kane Parsons filmou um curta no estilo <em>found footage<\/em> \u2014 filmagens encontradas \u2014 que mostrava um jovem entrando acidentalmente nos Backrooms enquanto filmava com uma c\u00e2mera VHS. O v\u00eddeo viralizou. A s\u00e9rie que veio depois ultrapassou 70 milh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es. E agora, esse mesmo <strong>Kane Parsons<\/strong> se torna o diretor mais jovem a comandar um filme da <strong>A24<\/strong> \u2014 a mesma produtora de <em>Heredit\u00e1rio, Midsommar <\/em>e <em>Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo<\/em>. N\u00e3o \u00e9 pouca coisa. E a press\u00e3o que vem com isso, <strong>Backrooms: Um N\u00e3o-Lugar<\/strong> aguenta bem.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/mauricioaraya.com\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/H4A8198-1.jpg\" alt=\"Backrooms: Um N\u00e3o-Lugar \u2013 mauricioaraya.com \u00b7 Blog do Maur\u00edcio Araya\" \/><\/p>\n<p>O filme, ambientado em 1990, acompanha Clark (<strong>Chiwetel Ejiofor<\/strong>, de <em>12 Anos de Escravid\u00e3o<\/em> e <em>Doutor Estranho<\/em>), um vendedor de m\u00f3veis que descobre no por\u00e3o de sua loja um portal para um labirinto de corredores e salas que lembram escrit\u00f3rios infinitos, esvaziados de qualquer prop\u00f3sito humano. Fascinado e perturbado em igual medida, ele convence sua funcion\u00e1ria Kat (<strong>Lukita Maxwell<\/strong>) e o namorado dela, Bobby (<strong>Finn Bennett<\/strong>), a ajud\u00e1-lo a mapear aquele espa\u00e7o imposs\u00edvel. Do lado de fora, uma terapeuta interpretada por <strong>Renate Reinsve<\/strong> \u2014 indicada ao Oscar por <em>A Pior Pessoa do Mundo<\/em> \u2014 vai atr\u00e1s do paciente desaparecido. O elenco est\u00e1 \u00e0 altura de um projeto que pede muito mais do que sustos.<\/p>\n<p>O filme abre com sustos, inclusive com alguns deles eficientes, nenhum deles gratuito. Mas o terror de saltar da cadeira \u00e9 s\u00f3 o ponto de entrada. Rapidamente, Backrooms migra para um suspense de a\u00e7\u00e3o onde a tens\u00e3o n\u00e3o explode: ela permanece. Gruda. Segue o personagem pelos corredores e fica ali, do in\u00edcio at\u00e9 a cena final, como uma presen\u00e7a constante que voc\u00ea n\u00e3o consegue nomear mas sente o tempo todo. Parsons claramente entende que o horror dos Backrooms n\u00e3o \u00e9 o monstro \u2014 \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de que voc\u00ea pode estar andando em c\u00edrculos e nem perceber.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/otempo.scene7.com\/is\/image\/sempreeditora\/backrooms-um-nao-lugar-parece-pesadeloreagem-os-fas?qlt=90&amp;ts=1778996797767&amp;dpr=off\" alt=\"Backrooms: Um N\u00e3o-Lugar parece pesadelo,reagem os f\u00e3s\" \/><\/p>\n<p>E \u00e9 aqui que o filme encontra sua camada mais interessante. O labirinto infinito dos Backrooms funciona como uma alegoria brutal sobre sa\u00fade mental: o que acontece com uma mente que n\u00e3o consegue sair do looping? Que repete padr\u00f5es, revisita traumas, constr\u00f3i h\u00e1bitos que a mant\u00eam presa em corredores que parecem diferentes mas levam ao mesmo lugar? Clark n\u00e3o \u00e9 um her\u00f3i de horror comum. \u00c9 um homem que carrega algo que o filme vai revelando com cuidado, e esse peso se manifesta em como ele age dentro dos Backrooms, em como ele trata as pessoas ao redor, em como convence os outros a entrarem num lugar que ele mesmo n\u00e3o compreende totalmente.<\/p>\n<p>O filme toca com firmeza na responsabiliza\u00e7\u00e3o da masculinidade t\u00f3xica, sem precisar virar panfleto para isso. Clark n\u00e3o \u00e9 um vil\u00e3o. \u00c9 um homem que foi formado por uma cultura que n\u00e3o ensina homens a processar o que sentem, ent\u00e3o eles processam para fora: em controle, em decis\u00f5es que afetam quem est\u00e1 ao lado, em uma autoridade que se apresenta como lideran\u00e7a mas \u00e9, na verdade, fuga.<\/p>\n<p>O labirinto n\u00e3o \u00e9 o por\u00e3o da loja. O labirinto foi constru\u00eddo antes disso.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o construiu mais de 2.700 metros quadrados de cen\u00e1rios f\u00edsicos para recriar aquela est\u00e9tica de escrit\u00f3rio dos anos 90, e a escolha de n\u00e3o depender de CGI para o ambiente principal \u00e9 certeira. A frieza concreta das paredes amareladas, o carpete encardido, a luz que n\u00e3o tem sombra, tudo isso produz um desconforto que nenhum fundo verde reproduziria da mesma forma. \u00c9 um filme que voc\u00ea sente na pele. Literalmente.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/onpoplife.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Backrooms.jpg\" alt=\"Fen\u00f4meno da internet, \u201cBackrooms: Um N\u00e3o-Lugar\u201d ganha trailer dublado e se aproxima da estreia - ON Pop Life\" \/><\/p>\n<p>Se Backrooms performar bem nas bilheterias (e h\u00e1 motivos concretos para acreditar que sim, dado o tamanho da base de f\u00e3s e o peso da A24) pode abrir uma gaveta que a ind\u00fastria ainda n\u00e3o escancarou: a adapta\u00e7\u00e3o de creepypastas como ponto de partida para o cinema de horror de autor. Pra quem jogou <strong>Control<\/strong>, jogo do universo de Alan Wake nos consoles, vai identificar muito bem a atmosfera. O universo das lendas digitais \u00e9 vasto, tem fandoms consolidados e narrativas que j\u00e1 foram testadas e aprovadas por milh\u00f5es de pessoas. A quest\u00e3o \u00e9 sempre a mesma: o que voc\u00ea faz com o material al\u00e9m de reproduzir o susto que j\u00e1 funcionou na internet? Parsons responde com maturidade que n\u00e3o se esperava de um diretor estreante \u2014 e esse pode ser o sinal que faltava para outros cineastas olharem para esse arquivo.<\/p>\n<p>Backrooms: Um N\u00e3o-Lugar \u00e9 o tipo de filme de terror que fica depois que a luz acende. N\u00e3o pelo susto que deu, mas pela pergunta que deixa: de qual labirinto voc\u00ea ainda n\u00e3o conseguiu sair?<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Backrooms: Um N\u00e3o-Lugar estreia dia 28 de maio nos cinemas brasileiros.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2019, algu\u00e9m jogou no f\u00f3rum 4chan uma foto banal: um escrit\u00f3rio vazio, paredes amareladas, carpete desgastado, luz de n\u00e9on. Sem janelas. Sem portas vis\u00edveis. 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