{"id":26999,"date":"2026-01-23T09:34:55","date_gmt":"2026-01-23T12:34:55","guid":{"rendered":"https:\/\/terranerdica.com.br\/?p=26999"},"modified":"2026-01-24T09:45:38","modified_gmt":"2026-01-24T12:45:38","slug":"o-dia-chegou-problematizaram-frieren-sobre-o-racismo-em-universos-fantasticos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/terranerdica.com.br\/index.php\/2026\/01\/23\/o-dia-chegou-problematizaram-frieren-sobre-o-racismo-em-universos-fantasticos\/","title":{"rendered":"O dia chegou: problematizaram Frieren! | Sobre o racismo em universos fant\u00e1sticos"},"content":{"rendered":"<p data-start=\"204\" data-end=\"595\">Chegou o dia. Todo anime que sai da bolha, alcan\u00e7a o grande p\u00fablico, ganha pr\u00eamios, vira unanimidade cr\u00edtica\u2026 eventualmente \u00e9 problematizado. N\u00e3o importa o qu\u00e3o sens\u00edvel, bem escrito ou cuidadoso ele seja: em algum momento, algu\u00e9m vai puxar um fio e tentar transformar a obra em s\u00edmbolo de algo que ela nunca se prop\u00f4s a ser. E agora, esse destino alcan\u00e7ou <strong><em data-start=\"561\" data-end=\"594\">Frieren e a Jornada para o Al\u00e9m<\/em>.<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p data-start=\"204\" data-end=\"595\">Pra quem tem pregui\u00e7a de ler, falo disso resumidamente no Instagram:&lt;<\/p>\n<blockquote class=\"instagram-media\" style=\"background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);\" data-instgrm-permalink=\"https:\/\/www.instagram.com\/reel\/DT3UbFECUD_\/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading\" data-instgrm-version=\"14\">\n<div style=\"padding: 16px;\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div style=\"display: flex; flex-direction: row; align-items: center;\">\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; flex-grow: 0; height: 40px; margin-right: 14px; width: 40px;\"><\/div>\n<div style=\"display: flex; flex-direction: column; flex-grow: 1; justify-content: center;\">\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; margin-bottom: 6px; width: 100px;\"><\/div>\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; width: 60px;\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div style=\"padding: 19% 0;\"><\/div>\n<div style=\"display: block; height: 50px; margin: 0 auto 12px; width: 50px;\"><\/div>\n<div style=\"padding-top: 8px;\">\n<div style=\"color: #3897f0; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: 550; line-height: 18px;\">Ver essa foto no Instagram<\/div>\n<\/div>\n<div style=\"padding: 12.5% 0;\"><\/div>\n<div style=\"display: flex; flex-direction: row; margin-bottom: 14px; align-items: center;\">\n<div>\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; height: 12.5px; width: 12.5px; transform: translateX(0px) translateY(7px);\"><\/div>\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; height: 12.5px; transform: rotate(-45deg) translateX(3px) translateY(1px); width: 12.5px; flex-grow: 0; margin-right: 14px; margin-left: 2px;\"><\/div>\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; height: 12.5px; width: 12.5px; transform: translateX(9px) translateY(-18px);\"><\/div>\n<\/div>\n<div style=\"margin-left: 8px;\">\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; flex-grow: 0; height: 20px; width: 20px;\"><\/div>\n<div style=\"width: 0; height: 0; border-top: 2px solid transparent; border-left: 6px solid #f4f4f4; border-bottom: 2px solid transparent; transform: translateX(16px) translateY(-4px) rotate(30deg);\"><\/div>\n<\/div>\n<div style=\"margin-left: auto;\">\n<div style=\"width: 0px; border-top: 8px solid #F4F4F4; border-right: 8px solid transparent; transform: translateY(16px);\"><\/div>\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; flex-grow: 0; height: 12px; width: 16px; transform: translateY(-4px);\"><\/div>\n<div style=\"width: 0; height: 0; border-top: 8px solid #F4F4F4; border-left: 8px solid transparent; transform: translateY(-4px) translateX(8px);\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div style=\"display: flex; flex-direction: column; flex-grow: 1; justify-content: center; margin-bottom: 24px;\">\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; margin-bottom: 6px; width: 224px;\"><\/div>\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; width: 144px;\"><\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;\"><a style=\"color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;\" href=\"https:\/\/www.instagram.com\/reel\/DT3UbFECUD_\/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Um post compartilhado por Terra Ne\u0301rdica (@terranerdica)<\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/blockquote>\n<p><script async src=\"\/\/www.instagram.com\/embed.js\"><\/script>\/p&gt;<\/p><\/blockquote>\n<p data-start=\"597\" data-end=\"1116\"><em data-start=\"597\" data-end=\"606\">Frieren<\/em> \u00e9 um dos animes mais premiados e elogiados dos \u00faltimos anos. Uma fantasia medieval melanc\u00f3lica, contemplativa, que fala sobre tempo, luto, mem\u00f3ria e rela\u00e7\u00f5es humanas a partir do ponto de vista de uma elfa que vive s\u00e9culos enquanto todos ao seu redor envelhecem e morrem. N\u00e3o \u00e9 uma obra sobre batalhas \u00e9picas, mas sobre o peso emocional do <em>depois do final feliz<\/em>. Justamente por isso, soa estranho \u2014 para n\u00e3o dizer for\u00e7ado \u2014 ver o anime sendo acusado de racismo por conta da forma como lida com seus dem\u00f4nios.<\/p>\n<p data-start=\"1118\" data-end=\"1879\">Mas essa discuss\u00e3o n\u00e3o nasce em <em data-start=\"1150\" data-end=\"1159\">Frieren<\/em>. Ela \u00e9 antiga e acompanha praticamente toda fantasia medieval desde <strong><em data-start=\"1228\" data-end=\"1248\">O Senhor dos An\u00e9is<\/em>.<\/strong> <strong>J. R. R. Tolkien<\/strong>, inclusive, \u00e9 um dos autores mais injustamente acusados de racismo na hist\u00f3ria da literatura fant\u00e1stica. Pouca gente lembra \u2014 ou sabe \u2014 que Tolkien nasceu na \u00c1frica do Sul e viveu durante o Apartheid, e que muitas das tens\u00f5es raciais da Terra-m\u00e9dia s\u00e3o, na verdade, paralelos cr\u00edticos a sistemas de segrega\u00e7\u00e3o e desumaniza\u00e7\u00e3o. A ideia de que orcs seriam mong\u00f3is, an\u00f5es judeus ou elfos arianos n\u00e3o vem dos livros, mas de leituras superficiais e, em grande parte, das adapta\u00e7\u00f5es visuais dos filmes de Peter Jackson. Nos textos originais, Tolkien jamais associa povos da Terra-m\u00e9dia a etnias humanas reais dessa forma.<\/p>\n<p data-start=\"1881\" data-end=\"2169\">O problema \u00e9 que muitos universos derivados da fantasia tolkieniana realmente herdaram \u2014 e distorceram \u2014 esses arqu\u00e9tipos, aplicando neles vis\u00f5es racistas, colonialistas ou simplistas. S\u00f3 que culpar a obra original, ou qualquer fantasia medieval automaticamente, \u00e9 um erro conceitual.<\/p>\n<p data-start=\"2171\" data-end=\"2234\">E \u00e9 exatamente esse erro que est\u00e1 sendo cometido com <em data-start=\"2224\" data-end=\"2233\">Frieren<\/em>.<\/p>\n<p data-start=\"2236\" data-end=\"2615\">A acusa\u00e7\u00e3o mais comum \u00e9 a de que Frieren seria <em>racista<\/em>\u00a0por odiar dem\u00f4nios. O ponto que essa cr\u00edtica ignora \u2014 ou escolhe ignorar \u2014 \u00e9 que os dem\u00f4nios em <em data-start=\"2389\" data-end=\"2398\">Frieren<\/em> n\u00e3o s\u00e3o uma ra\u00e7a an\u00e1loga a humanos. Eles n\u00e3o representam um povo, uma cultura ou uma sociedade diversa. Eles est\u00e3o muito mais pr\u00f3ximos de pragas naturais ou plantas carn\u00edvoras do que de qualquer grupo humano.<\/p>\n<p data-start=\"2617\" data-end=\"3215\">Os dem\u00f4nios de <em data-start=\"2632\" data-end=\"2641\">Frieren<\/em> n\u00e3o sentem empatia. Eles n\u00e3o compreendem emo\u00e7\u00f5es. Eles n\u00e3o possuem moralidade. Eles mimetizam tra\u00e7os humanos como estrat\u00e9gia de ca\u00e7a. Palavras, para eles, n\u00e3o t\u00eam significado emocional \u2014 s\u00e3o ferramentas. Feiti\u00e7os sociais. O epis\u00f3dio emblem\u00e1tico do dem\u00f4nio que grita <em>Socorro!<\/em> deixa isso claro: ele n\u00e3o entende o que a palavra significa, nem sente medo ou dor. Ele apenas observou que humanos usam essa palavra quando est\u00e3o prestes a morrer, ent\u00e3o a replica para atrair presas. \u00c9 um comportamento id\u00eantico ao de um predador que imita o som de outra esp\u00e9cie para ca\u00e7\u00e1-la.<\/p>\n<p data-start=\"3217\" data-end=\"3511\">Nesse contexto, o \u00f3dio de Frieren n\u00e3o \u00e9 preconceito: \u00e9 reconhecimento de uma amea\u00e7a existencial. Ela n\u00e3o odeia dem\u00f4nios por serem diferentes, mas por serem m\u00e1quinas de matar incapazes de coexist\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1 di\u00e1logo poss\u00edvel porque, literalmente, n\u00e3o h\u00e1 linguagem emocional compartilhada.<\/p>\n<p data-start=\"3513\" data-end=\"4060\">Isso fica ainda mais claro quando comparamos <em data-start=\"3558\" data-end=\"3567\">Frieren<\/em> com outras obras contempor\u00e2neas que tratam dem\u00f4nios de forma completamente diferente. Em <strong><em data-start=\"3657\" data-end=\"3671\">Demon Slayer<\/em><\/strong>, por exemplo, os dem\u00f4nios s\u00e3o humanos transformados \u00e0 for\u00e7a por <strong>Muzan<\/strong>. <strong>Tanjiro<\/strong> sente empatia porque sua pr\u00f3pria irm\u00e3 \u00e9 uma dessas v\u00edtimas, e a narrativa refor\u00e7a constantemente a possibilidade de reden\u00e7\u00e3o. Em produ\u00e7\u00f5es como <strong><em data-start=\"3895\" data-end=\"3916\">Guerreiras do K-pop<\/em><\/strong>, os dem\u00f4nios s\u00e3o praticamente humanos que cometeram erros, fizeram pactos ou vivem dilemas morais \u2014 tanto que a pr\u00f3pria protagonista \u00e9 h\u00edbrida.\u00a0Nada disso se aplica a <em data-start=\"4085\" data-end=\"4094\">Frieren<\/em>.<\/p>\n<p data-start=\"4097\" data-end=\"4360\">Os dem\u00f4nios ali n\u00e3o s\u00e3o v\u00edtimas. N\u00e3o s\u00e3o met\u00e1foras sociais. N\u00e3o s\u00e3o espelhos da humanidade. S\u00e3o entidades predat\u00f3rias que apenas imitam humanidade para sobreviver. Tratar isso como racismo exige uma leitura que ignora deliberadamente a l\u00f3gica interna da obra.<\/p>\n<p data-start=\"4362\" data-end=\"4932\">O ponto mais preocupante dessa pol\u00eamica, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 a cr\u00edtica em si, mas o fato de <em data-start=\"4447\" data-end=\"4456\">Frieren<\/em> ter sido apropriada por grupos extremistas e supremacistas como s\u00edmbolo \u2014 algo completamente infundado. A obra jamais defendeu pureza racial, hierarquia cultural ou exclus\u00e3o de povos. Frieren, inclusive, demonstra curiosidade, respeito e at\u00e9 admira\u00e7\u00e3o por culturas humanas, mesmo quando n\u00e3o as compreende totalmente. Sua dificuldade n\u00e3o \u00e9 preconceito, \u00e9 dist\u00e2ncia temporal e existencial. Ela n\u00e3o odeia o diferente; ela simplesmente n\u00e3o compartilha do mesmo ritmo de vida.<\/p>\n<p data-start=\"4934\" data-end=\"5323\">Dizer que <em data-start=\"4944\" data-end=\"4953\">Frieren<\/em> \u00e9 racista diz muito mais sobre quem faz a acusa\u00e7\u00e3o do que sobre o anime. \u00c9 projetar debates do mundo real em uma obra que, ironicamente, \u00e9 sobre empatia, escuta e amadurecimento emocional. Nem toda criatura fant\u00e1stica \u00e9 uma alegoria social. Nem todo conflito \u00e9 pol\u00edtico. \u00c0s vezes, um dem\u00f4nio \u00e9 apenas um dem\u00f4nio \u2014 e reconhecer isso n\u00e3o \u00e9 intoler\u00e2ncia, \u00e9 leitura atenta.<\/p>\n<p data-start=\"5325\" data-end=\"5511\" data-is-last-node=\"\" data-is-only-node=\"\">E talvez esse seja o verdadeiro sinal de que <em data-start=\"5370\" data-end=\"5379\">Frieren<\/em> estourou a bolha: quando at\u00e9 uma das fantasias mais sens\u00edveis e humanas dos \u00faltimos anos passa a ser reduzida a r\u00f3tulos apressados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chegou o dia. Todo anime que sai da bolha, alcan\u00e7a o grande p\u00fablico, ganha pr\u00eamios, vira unanimidade cr\u00edtica\u2026 eventualmente \u00e9 problematizado. 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