{"id":25230,"date":"2025-05-08T20:44:21","date_gmt":"2025-05-08T23:44:21","guid":{"rendered":"https:\/\/terranerdica.com.br\/?p=25230"},"modified":"2025-05-08T20:44:21","modified_gmt":"2025-05-08T23:44:21","slug":"critica-o-eternauta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/terranerdica.com.br\/index.php\/2025\/05\/08\/critica-o-eternauta\/","title":{"rendered":"Cr\u00edtica | O Eternauta"},"content":{"rendered":"<p>O Eternauta, na adapta\u00e7\u00e3o de Bruno Stagnaro para a Netflix, carrega o peso monumental de uma das hist\u00f3rias em quadrinhos mais emblem\u00e1ticas da Argentina e, inevitavelmente, enfrenta o desafio de corresponder \u00e0s expectativas de d\u00e9cadas de f\u00e3s. A s\u00e9rie, ambientada em uma Buenos Aires contempor\u00e2nea, recria de forma impressionante o cen\u00e1rio apocal\u00edptico de uma invas\u00e3o alien\u00edgena sob uma tempestade de cinzas t\u00f3xicas, mas evita a armadilha de apenas reproduzir o material original. Stagnaro opta por um olhar mais \u00edntimo e humano, sem renunciar aos momentos de tens\u00e3o e espet\u00e1culo visual. Embora a s\u00e9rie demore a encontrar seu ritmo e s\u00f3 engrene de fato a partir do terceiro epis\u00f3dio, seu investimento na constru\u00e7\u00e3o de personagens e na ambienta\u00e7\u00e3o cuidadosa faz dela uma experi\u00eancia que vai al\u00e9m da nostalgia.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"750\" height=\"375\" class=\"aligncenter wp-image-25233 size-jnews-750x375\" src=\"http:\/\/terranerdica.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/o-eternauta-netflix-750x375.webp\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/terranerdica.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/o-eternauta-netflix-750x375.webp 750w, https:\/\/terranerdica.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/o-eternauta-netflix-360x180.webp 360w, https:\/\/terranerdica.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/o-eternauta-netflix-1140x570.webp 1140w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p>O tom adotado pela s\u00e9rie \u00e9 deliberadamente mais reflexivo e centrado no drama humano do que na a\u00e7\u00e3o desenfreada, o que pode frustrar o p\u00fablico acostumado ao imediatismo de fic\u00e7\u00f5es apocal\u00edpticas contempor\u00e2neas. O Eternauta prioriza o desmoronamento social e os la\u00e7os de solidariedade em tempos de crise, abordando a lenta eros\u00e3o da conviv\u00eancia e os dilemas morais que surgem diante do desconhecido. Essa escolha narrativa aproxima a s\u00e9rie de obras como O Nevoeiro de Stephen King, ainda que evite os choques f\u00e1ceis e prefira trabalhar a tens\u00e3o acumulada. \u00c9 um drama de sobreviv\u00eancia que mistura fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica com estudo de personagens, com atua\u00e7\u00f5es de Ricardo Dar\u00edn, Carla Peterson e C\u00e9sar Troncoso elevando cada cena.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 algo que prejudica a s\u00e9rie \u00e9 seu ritmo irregular. Os primeiros epis\u00f3dios carecem de acontecimentos mais impactantes e se estendem em di\u00e1logos que, embora bem escritos, atrasam a entrada da s\u00e9rie na zona de tens\u00e3o propriamente dita. S\u00f3 quando os alien\u00edgenas e suas criaturas grotescas aparecem em cenas memor\u00e1veis \u2014 como o ataque no shopping ou a queda do avi\u00e3o H\u00e9rcules \u2014 \u00e9 que El Eternauta finalmente revela a dimens\u00e3o \u00e9pica que sempre prometeu. Essa demora em avan\u00e7ar, por\u00e9m, encontra sua justificativa na inten\u00e7\u00e3o de Stagnaro de atualizar temas pol\u00edticos e sociais do original, situando-os num pa\u00eds contempor\u00e2neo marcado pelo caos econ\u00f4mico e pelas cicatrizes do passado, como a Guerra das Malvinas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"750\" height=\"375\" class=\"aligncenter wp-image-25231 size-jnews-750x375\" src=\"http:\/\/terranerdica.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Edicoes-64-750x375.webp\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/terranerdica.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Edicoes-64-750x375.webp 750w, https:\/\/terranerdica.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Edicoes-64-360x180.webp 360w, https:\/\/terranerdica.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Edicoes-64-1140x570.webp 1140w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p>A atmosfera de Buenos Aires devastada \u00e9, sem d\u00favida, um dos maiores trunfos da s\u00e9rie. O trabalho de dire\u00e7\u00e3o de arte e fotografia transforma a cidade em personagem viva e apavorante, com suas ruas cobertas de cinzas e sua arquitetura brutalista refor\u00e7ando a sensa\u00e7\u00e3o de isolamento e colapso iminente. A trilha sonora tamb\u00e9m colabora, combinando cl\u00e1ssicos do rock argentino com can\u00e7\u00f5es mais recentes, criando um mosaico sonoro que conecta passado e presente. H\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o em enraizar a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica num ambiente culturalmente reconhec\u00edvel, o que impede que a s\u00e9rie soe como mera c\u00f3pia de produ\u00e7\u00f5es americanas do g\u00eanero.<\/p>\n<p>Apesar das qualidades, alguns trope\u00e7os narrativos s\u00e3o evidentes. O roteiro insiste em longos conflitos internos e decis\u00f5es question\u00e1veis dos personagens que podem irritar parte da audi\u00eancia. H\u00e1 momentos em que voc\u00ea sente vontade de gritar diante da teimosia ou imprud\u00eancia de certos protagonistas. Ainda assim, a s\u00e9rie reserva sequ\u00eancias memor\u00e1veis, como a cena na igreja ou o plano desastroso do quarto epis\u00f3dio, em que a tens\u00e3o atinge n\u00edveis quase insuport\u00e1veis. \u00c9 nesse equil\u00edbrio entre introspec\u00e7\u00e3o e horror que O Eternauta encontra sua identidade.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"750\" height=\"375\" class=\"aligncenter wp-image-25232 size-jnews-750x375\" src=\"http:\/\/terranerdica.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/O-Eternauta-2-750x375.webp\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/terranerdica.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/O-Eternauta-2-750x375.webp 750w, https:\/\/terranerdica.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/O-Eternauta-2-360x180.webp 360w, https:\/\/terranerdica.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/O-Eternauta-2-1140x570.webp 1140w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p>No fim, o projeto de Stagnaro funciona mais como homenagem e atualiza\u00e7\u00e3o do cl\u00e1ssico do que como sua r\u00e9plica fiel. A s\u00e9rie respeita o esp\u00edrito de resist\u00eancia coletiva do quadrinho, mas adapta suas ang\u00fastias e refer\u00eancias a uma Argentina moderna e ao p\u00fablico global da Netflix. A apari\u00e7\u00e3o de personagens hist\u00f3ricos da filmografia de Stagnaro refor\u00e7a esse elo afetivo entre gera\u00e7\u00f5es, enquanto a produ\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica de alt\u00edssimo n\u00edvel torna Buenos Aires um cen\u00e1rio apocal\u00edptico de padr\u00e3o internacional. Mesmo com seus problemas de ritmo e algumas decis\u00f5es discut\u00edveis, O Eternauta se firma como uma das s\u00e9ries de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica mais ousadas e visualmente marcantes da Am\u00e9rica Latina nos \u00faltimos anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Eternauta, na adapta\u00e7\u00e3o de Bruno Stagnaro para a Netflix, carrega o peso monumental de uma das hist\u00f3rias em quadrinhos mais emblem\u00e1ticas da Argentina e, inevitavelmente, enfrenta o desafio de corresponder \u00e0s expectativas de d\u00e9cadas de f\u00e3s. 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