Seven, quarto episódio de O Cavaleiro dos Sete Reinos faz uma coisa que eu, sinceramente, não esperava sentir com tanta força: ele prova como é ainda mais fascinante acompanhar os Targaryen num mundo em que os dragões já viraram passado. A gente passou anos associando essa família ao poder absoluto, ao fogo, ao céu, ao medo. De repente, estamos diante de uma dinastia que continua reinando basicamente na base do prestígio histórico, da memória e da política. Eles governam porque foram senhores dos dragões.
É curioso porque essa sempre foi uma pergunta que rondou quem conhece a cronologia de Westeros: como essa casa conseguiu se manter por quase dois séculos depois de perder sua principal arma de dominação? A série começa a responder isso mostrando que o peso do nome ainda intimida, ainda organiza o jogo de forças, ainda impõe respeito. E, talvez por isso mesmo, é tão interessante de ver em cena.
Mas, apesar de todo o brilho que envolve a realeza, o coração do episódio continua sendo Sor Duncan, o Alto (Peter Claffey). Ou melhor, o contraste entre Dunk e esse mundo de títulos herdados. Há um momento específico que diz muito sobre isso: quando ele é chamado por Raymun Fossoway (Shaun Thomas) para armá-lo como campeão por necessidade de mais um no Julgamento dos Sete. Raymun insiste, confia nele, quer aquela honra. Dunk, no entanto, trava.
À primeira vista pode parecer hesitação emocional, medo da responsabilidade ou receio de colocar o rapaz em perigo. Mas tem algo mais profundo ali: Dunk claramente não sabe as palavras do juramento. Se o juiz não tivesse interferido e Sor Lyonel Baratheon (Daniel Ings) não tivesse se oferecido para realizar a cerimônia, Dunk poderia ter sido exposto ali mesmo, diante de todo mundo. E é aí que a série mostra o quanto entende o material de origem.
Em The Hedge Knight, o primeiro conto das aventuras de Dunk & Egg, a própria condição de Dunk como cavaleiro é cercada de ambiguidade. Ele afirma que Sor Arlan o armou antes de morrer, mas não há testemunhas. George R. R. Martin planta a dúvida de maneira delicada, sugerindo que talvez isso nunca tenha acontecido e que Dunk assumiu essa identidade para poder sobreviver e participar do torneio.
A adaptação, dirigida por Sarah Adina Smith, brinca exatamente com essa incerteza. Se Dunk não foi formalmente armado, é natural que ele não saiba conduzir a cerimônia nem repetir o ritual. A pausa, o desconforto, o silêncio — tudo vira pista. É um detalhe pequeno, mas gigantesco em significado, especialmente para quem conhece os livros. É o tipo de camada que recompensa o fã atento sem esfregar nada na cara do público.
Compartilhe meu resumo sobre essa cena no Instagram:
Ver essa foto no Instagram
Ao mesmo tempo, a ironia é linda: talvez o homem menos legítimo em título seja o mais legítimo em virtude. Porque tem uma coisa que esse episódio deixa muito clara e que é parte essencial do charme da obra: Dunk conquista o respeito de todo mundo simplesmente por ser um sujeito decente. Humilde, honesto, incapaz de ignorar uma injustiça. Ele é, em essência, mais nobre do que muitos nobres.
Por isso a plateia dentro da história começa a virar a favor dele. Por isso cavaleiros importantes simpatizam com sua causa. Por isso o clima deixa de ser apenas o de um julgamento por traição e passa a ser quase o de um reconhecimento moral.
O auge disso é quando Baelor Targaryen (Bertie Carvel) se oferece para lutar por Duncan no Julgamento dos Sete. A justificativa é simples e perfeita: aquele homem protegeu uma inocente como qualquer cavaleiro deveria fazer. Nesse instante, o episódio reafirma o tema central de Dunk & Egg — o ideal de cavalaria em confronto com a realidade política — e mostra como Duncan, mesmo cheio de dúvidas sobre si, encarna esse ideal melhor do que a maioria. No meio de príncipes, brasões e protocolos, quem brilha é o cara grande, desajeitado e genuinamente bom.
O quarto episódio equilibra muito bem esse jogo entre grandeza histórica e humanidade. Ele expande nossa visão sobre os Targaryen sem dragões, fortalece os conflitos que virão no julgamento e ainda encontra espaço para inserir sutilezas que dialogam diretamente com a ambiguidade literária criada por Martin. É televisão que confia na inteligência do espectador.
Se a série continuar entendendo Dunk dessa forma — como um homem que talvez não tenha o título, mas tem o coração de um cavaleiro — a gente está em ótimas mãos.


