Chegou o dia. Todo anime que sai da bolha, alcança o grande público, ganha prêmios, vira unanimidade crítica… eventualmente é problematizado. Não importa o quão sensível, bem escrito ou cuidadoso ele seja: em algum momento, alguém vai puxar um fio e tentar transformar a obra em símbolo de algo que ela nunca se propôs a ser. E agora, esse destino alcançou Frieren e a Jornada para o Além.
Pra quem tem preguiça de ler, falo disso resumidamente no Instagram:<
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Frieren é um dos animes mais premiados e elogiados dos últimos anos. Uma fantasia medieval melancólica, contemplativa, que fala sobre tempo, luto, memória e relações humanas a partir do ponto de vista de uma elfa que vive séculos enquanto todos ao seu redor envelhecem e morrem. Não é uma obra sobre batalhas épicas, mas sobre o peso emocional do depois do final feliz. Justamente por isso, soa estranho — para não dizer forçado — ver o anime sendo acusado de racismo por conta da forma como lida com seus demônios.
Mas essa discussão não nasce em Frieren. Ela é antiga e acompanha praticamente toda fantasia medieval desde O Senhor dos Anéis. J. R. R. Tolkien, inclusive, é um dos autores mais injustamente acusados de racismo na história da literatura fantástica. Pouca gente lembra — ou sabe — que Tolkien nasceu na África do Sul e viveu durante o Apartheid, e que muitas das tensões raciais da Terra-média são, na verdade, paralelos críticos a sistemas de segregação e desumanização. A ideia de que orcs seriam mongóis, anões judeus ou elfos arianos não vem dos livros, mas de leituras superficiais e, em grande parte, das adaptações visuais dos filmes de Peter Jackson. Nos textos originais, Tolkien jamais associa povos da Terra-média a etnias humanas reais dessa forma.
O problema é que muitos universos derivados da fantasia tolkieniana realmente herdaram — e distorceram — esses arquétipos, aplicando neles visões racistas, colonialistas ou simplistas. Só que culpar a obra original, ou qualquer fantasia medieval automaticamente, é um erro conceitual.
E é exatamente esse erro que está sendo cometido com Frieren.
A acusação mais comum é a de que Frieren seria racista por odiar demônios. O ponto que essa crítica ignora — ou escolhe ignorar — é que os demônios em Frieren não são uma raça análoga a humanos. Eles não representam um povo, uma cultura ou uma sociedade diversa. Eles estão muito mais próximos de pragas naturais ou plantas carnívoras do que de qualquer grupo humano.
Os demônios de Frieren não sentem empatia. Eles não compreendem emoções. Eles não possuem moralidade. Eles mimetizam traços humanos como estratégia de caça. Palavras, para eles, não têm significado emocional — são ferramentas. Feitiços sociais. O episódio emblemático do demônio que grita Socorro! deixa isso claro: ele não entende o que a palavra significa, nem sente medo ou dor. Ele apenas observou que humanos usam essa palavra quando estão prestes a morrer, então a replica para atrair presas. É um comportamento idêntico ao de um predador que imita o som de outra espécie para caçá-la.
Nesse contexto, o ódio de Frieren não é preconceito: é reconhecimento de uma ameaça existencial. Ela não odeia demônios por serem diferentes, mas por serem máquinas de matar incapazes de coexistência. Não há diálogo possível porque, literalmente, não há linguagem emocional compartilhada.
Isso fica ainda mais claro quando comparamos Frieren com outras obras contemporâneas que tratam demônios de forma completamente diferente. Em Demon Slayer, por exemplo, os demônios são humanos transformados à força por Muzan. Tanjiro sente empatia porque sua própria irmã é uma dessas vítimas, e a narrativa reforça constantemente a possibilidade de redenção. Em produções como Guerreiras do K-pop, os demônios são praticamente humanos que cometeram erros, fizeram pactos ou vivem dilemas morais — tanto que a própria protagonista é híbrida. Nada disso se aplica a Frieren.
Os demônios ali não são vítimas. Não são metáforas sociais. Não são espelhos da humanidade. São entidades predatórias que apenas imitam humanidade para sobreviver. Tratar isso como racismo exige uma leitura que ignora deliberadamente a lógica interna da obra.
O ponto mais preocupante dessa polêmica, porém, não é a crítica em si, mas o fato de Frieren ter sido apropriada por grupos extremistas e supremacistas como símbolo — algo completamente infundado. A obra jamais defendeu pureza racial, hierarquia cultural ou exclusão de povos. Frieren, inclusive, demonstra curiosidade, respeito e até admiração por culturas humanas, mesmo quando não as compreende totalmente. Sua dificuldade não é preconceito, é distância temporal e existencial. Ela não odeia o diferente; ela simplesmente não compartilha do mesmo ritmo de vida.
Dizer que Frieren é racista diz muito mais sobre quem faz a acusação do que sobre o anime. É projetar debates do mundo real em uma obra que, ironicamente, é sobre empatia, escuta e amadurecimento emocional. Nem toda criatura fantástica é uma alegoria social. Nem todo conflito é político. Às vezes, um demônio é apenas um demônio — e reconhecer isso não é intolerância, é leitura atenta.
E talvez esse seja o verdadeiro sinal de que Frieren estourou a bolha: quando até uma das fantasias mais sensíveis e humanas dos últimos anos passa a ser reduzida a rótulos apressados.


