Para uma obra que se esforça tanto para criticar a realidade, chegando ao ponto de nos fazer assistir duas horas do Mark Ruffalo imitando o Trump e literalmente reencenando seu atentado, o desfecho acaba sendo decepcionante. Afinal, no mundo real, não há um análogo à máquina de cópias para explodir e resolver tudo – como se essa tecnologia hipoteticamente maligna, sozinha, fosse responsável pela propagação de ideias perigosas (colonialistas e violentas). Mas a verdade é que, na vida real, as coisas não são preto no branco – e o herói nem sempre é totalmente bom.
Houve um momento em que achei que essa dualidade seria explorada: quando Mickey 17 retorna para Nasha, acreditando que ela o enxergaria como o mais autêntico e ficaria horrorizada com a existência de outro Mickey. Contudo, ela fica empolgada. A cena em que ela sorri ao ver as duas cópias juntas e percebe o que pode obter delas (prazer próprio) me fez pensar que estávamos prestes a ver uma jornada emocional mais profunda. Foi também o momento em que mais me conectei com Mickey 17. Até então, Nasha era a única pessoa que não o via como um descartável e o fazia se sentir valorizado, individual, ainda ele mesmo após tantas mortes. Mas, ao ver as duas cópias lado a lado, ela passa a tratá-lo como algo substituível, um recurso que pode servir a seus próprios interesses. No entanto, essa complexidade nunca é realmente explorada.
Nasha termina como a heroína do filme, após um monólogo declarativo sobre as políticas de imigração de Trump, ao acabar com o programa de cópias. De fato, é ela quem tem motivações próprias e age por conta própria. Mickey, por outro lado, passa o tempo todo reagindo aos eventos, sem tomar grandes iniciativas. Mickey 18 surge para redimir essa passividade, essa aceitação resignada do sistema – algo bem representado na cena do jantar, um dos momentos em que o filme realmente brilha. São nesses instantes de cinema absurdo que Bong Joon-ho faz tão bem que a crítica funciona.
No fim, Mickey 17 parece uma fusão entre Parasita e Expresso do Amanhã, com um recorte direto da política atual. Apesar das minhas ressalvas, minha experiência como espectadora foi positiva – o filme me manteve engajada o tempo todo. Mas, para um tema tão profundo, complexo e interessante quanto o que faz de mim, eu?, um final mais reflexivo e menos conclusivo teria sido muito mais satisfatório do que simplesmente nos declarar o que é errado e deve ser eliminado, e o que deve prevalecer.
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